Réquiem Por Uma Jovem Amiga – Romulo Pintoandrade

Réquiem Por Uma Jovem Amiga

                                    Romulo Pintoandrade – Brasília, DF

“o brasileiro é antes de tudo um forte fazedor de deserto”
                                                                  – Bernardo Élis

Tantas vezes ao passar
pude sentir a graça
de tua insinuante beleza
coberta de flores rosadas.

Quando nas ásperas tardes
de um prolongado estio
eras sombra acolhedora
para alívio dos viventes

E lágrimas misteriosas
choravas serenamente
no silêncio deste vale,
tuas sementes curativas
espalhavas generosa
pelo vento.

Hoje lanço meu lamento
por estares assim inerte
à beira de uma estrada
desolada e poeirenta
do assentamento urbano.

O golpe do machado
do homem sem raiz
estúpido
inconsequente
atingiu o fluxo
o cerne de teu tronco
e a alegria, a vida plena
que semeavas estancou-se,
minha linda sucupira.

Quando é que nossa gente
que depende tanto das árvores
terá olhos pra esta nobreza
e defenderá a vida e o encanto
que esses seres milenares propagam?

 _______________

Uma observação:
não é figura de linguagem de poeta enternecido…
a sucupira tem essa característica rara de que caem gotas d’água de suas flores em plena seca… eu não acreditei até que um dia fui pintar em sua sombra e pude confirmar que ela chora, deveras.
http://pintoandrade.multiply.com/

imagem : http://produtosdachapada.blogspot.com/p/sucupira-pterodon-emarginatus.html
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3 respostas para Réquiem Por Uma Jovem Amiga – Romulo Pintoandrade

  1. Minha cidade é castigada pelo vento do mar. Não existem nela muitas árvores frondosas. As que ainda existem trazem a marca do vento, retorcidas e resistentes.
    Quando alguém resolve cortar uma delas, como por exemplo, uma certa castanheira que pecava por deixar cair folhas no inverno, a gente sente dor, dor de perda, dor de ódio.

    • claricevillac disse:

      Amigo Márcio,
      sei o que é isso…
      Aqui no meu prédio, eu tinha uma dama da noite de quatro anos de idade, lindamente estendendo seus galhos, fazia um volume grande e perfumava tudo. Mas o novo ‘síndico’ cismou de cortar todas as plantas do prédio até uma altura de 80cm, e diz que é por causa ‘da segurança’ etc. A pobre dama da noite está agora assim… Protestei fortemente, mas de nada adiantou. Os moradores estão entretidos com suas correrias, não notam nada. Os que ficam em casa são senhoras e senhores aposentados, ranzinzas e medrosos… têm ímpetos de ‘controlar a selvageria das plantas’… são pessoas encouraçadas em suas certezas e não escutam ninguém. É muito triste isso, e revoltante também.

  2. as pessoas em geral estão muito embrutecidas pelo sistema, perderam a dimensão do encantamento com a existência, aquela chama de gratidão, amor e alegria que temos na infância. Essa a importância da verdadeira poesia, essa força que desperta e ilumina: faz a gente lembrar os valores mais humanos, nos faz recordar o milagre que é a vida.

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