Nuvens – Müller Barone

Nuvens

               Müller Barone  – Curitiba, PR

O que você acha, Cláudio, de eu escrever apenas sobre as nuvens que passam nesse retalho de janela – só a parte da direita, a da esquerda é o prédio ao lado – formando cães, ursos, peixes e, quando nada disso, se amontoam parecendo o fim dos tempos?

Será que alguém se interessaria por isso que vejo? Nuvens? Bichos de algodão? Acho que não, não, não, não nos dias de hoje.

Por que alguém se interessaria sobre o meu olhar para as nuvens? Nem mesmo uma que agora vejo e lembra, acredite, a Maserati do Juan Manuel Fangio.

Enquanto olhava uma nuvem que parecia um elefante e foi se esticando e se transformando num rato, até que se mexeu tanto que virou um canguru, ia passando, pensei em simplicidade. Acho que as pessoas perderam a simplicidade e não se importam com as nuvens ou com o que eu penso e vejo nelas. Talvez elas se importem e eu tenha perdido a simplicidade e creio, pois, que foram elas.

Gostaria que as pessoas se importassem mais com o que penso sobre as nuvens do que com meus editoriais, porque eles só olham para frente e para baixo. Editoriais não falam de nuvens. E eu queria falar de nuvens. Ando triste e cansado, acho um saco ter que falar de tanta coisa e não falar de nuvens. Nuvens deveriam ser importantes.

Do golpe no Mali, todo mundo fala. Não aguento mais saber das prévias republicanas nos EUA. Folheio todas as páginas do jornal, inclusive o de domingo passado, e não há uma minúscula frase sobre as nuvens.

Você já viu bichos nas nuvens? Até hoje eu os vejo. Quando era criança tentava fazer minhas bolinhas de sabão irem até elas. Quando estouravam, fazia de conta que foram os bichos de nuvens que as cutucaram. Fechava um olho e via o céu através da bola de sabão, fechava o outro e só via o céu. Num olhar ou noutro estavam lá as nuvens.

Confesso: eu conversava com elas, pedia que elas me deixassem moldar uma a uma com meus pensamentos, como se faz com as mãos e massa de modelar. Eu modelava as nuvens com meus pensamentos, todos os bichos de nuvens do meu tempo fui eu em quem criou.

Fiz dinossauros, cães, gatos, marrecos, fiz macacos e, olha só que prodígio, fiz um King-Kong e fiz também um avestruz, aliás, saiba que é muito, mas muito difícil mesmo fazer avestruzes de nuvens. Sabe por quê? Por causa do pescoço do avestruz, é difícil afinar uma nuvem daquele jeito. Pescoço de girafa, que é mais grosso, é fácil, avestruz não. Minhoca eu nunca consegui, serpentes, sim, minhocas não teve jeito.

Sabe de uma coisa, eu queria ter cinco anos, daí todo mundo ia querer saber das minhas histórias sobre as nuvens. Com cinquenta acho que vão pensar que sou doido.

E agora dá licença que vou continuar modelando as nuvens que estão passando por aqui.

http://www.palanquemarginal.com.br/site/nuvens-muller-barone/

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3 respostas para Nuvens – Müller Barone

  1. Fatima Barreto Michels disse:

    Barone: ainda temos sensibilidade num grau elevadíssimo. Não sei se isto é uma dádiva mas este seu texto está pura arte. Sabe quando a gente lê algo e queria ter sido o autor? Ai ai ai que coisa mais gostosa de ler! Diz a letra daquela música “a gente não quer só comida (…)” Há que se desenhar bichos nas nuvens! Obrigada por nos levar com você a deitar sob a janela e encher a barriga da alma! Abraço forte e fraterno daqui – Fatima, da praia do Mar Grosso em Laguna/SC

  2. Barone disse:

    Obrigado, Fátima. Beijos.

  3. Rosa Pena disse:

    Linda Baroninho! (adoro o Baroninho que brinca com as nuvens)..beijo
    rosa

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