Cidadãos somam esforços para ‘desmarginalizar’ o Tietê – Malu Ribeiro

As metas apresentadas e os cronogramas planejados são exequíveis, mas o resgate do rio dependerá da atitude de todos os paulistas

22 de setembro de 2012

MALU RIBEIRO – COORDENADORA DA REDE DAS ÁGUAS DA FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA – O Estado de S.Paulo

O Tietê, maior rio paulista, espelha de forma caricata o retrato do modelo de desenvolvimento que adotamos até agora e os conflitos de uma sociedade que quer desenvolvimento sustentável, porém sem compreender o que isso significa.

Nada mais paulistano que esse rio marginalizado e esquecido, que corta a metrópole em meio ao caos do tráfego de carros, caminhões, balsas, dragas, trabalhadores e pessoas, tão próximas e ao mesmo tempo tão invisíveis, como o próprio rio.

Chegar à beira do Tietê em São Paulo não é fácil e pode render até multa. Ainda hoje, ao percorrer a Marginal, na capital, na tentativa de chegar o mais próximo possível do rio para coletar uma amostra de água, na região da Ponte das Bandeiras, me deparei com pessoas que vivem em canais de drenagem e tomam banho nas águas que vêm por essas galerias. E, com uma alegria distante dessa realidade, cantavam trechos de uma música para o velho Tietê. Já havíamos presenciado cenas surreais como essa.

Inspirados nesses personagens anônimos e nos grandes artistas brasileiros que retrataram, compuseram canções, poemas, versos, produziram filmes e levaram o teatro e as artes para o rio, a SOS Mata Atlântica organizou uma homenagem singela ao Tietê, um sarau contemporâneo para celebrar o rio. Isso ocorreria ontem, na véspera do Dia do Tietê, comemorado hoje, na hora em que as Marginais ficam lotadas, na boca da noite.

A poluição e o modelo de ocupação urbana que adotamos até agora afastam os cidadãos do convívio com os rios e córregos das cidades. Essa poluição rouba de nós não apenas a qualidade de vida e a saúde, mas, principalmente, nossa cultura e memória, além de mudar os valores da sociedade, de forma radical, a ponto de destruirmos o que nos é essencial e escasso: a água.

Para reverter essa degradação ambiental, há 20 anos destinamos recursos financeiros, tecnológicos e institucionais por meio do projeto de despoluição do Rio Tietê, a cargo do governo de São Paulo, com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento, da Sabesp e de outras instituições financeiras. Fiscalizamos, monitoramos e nos mantemos mobilizados, porém, com a sensação de que ainda há muito a ser feito para que o rio deixe de ser fétido e volte a ser utilizado pelos cidadãos, ao longo dos seus 1,1 mil quilômetros.

As metas apresentadas e os cronogramas contratados são exequíveis, porém dependem do nosso comportamento, das atitudes de cada cidadão paulista, do entendimento de que nosso descaso retorna a nós mesmos, na forma de doenças de veiculação hídrica, na insalubridade das cidades e na incapacidade de revertemos quadros como esse. O que não sabemos é como essa falta de atenção e respeito para com os recursos naturais influenciará a cultura e o comportamento das futuras gerações.

Vamos reviver o Tietê e resgatar por meio da recuperação das suas águas e da cultura o espírito de cidadania e a capacidade de mudar o retrato deste tempo.

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,cidadaos-somam-esforcos-para-desmarginalizar-o-tiete-,934240,0.htm

(artigo enviado pelo amigo e colaborador Raul Motta)

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