Dia da Consciência Negra – 20 de Novembro – Clarice Villac, cartum de Carlos Latuff

zumbi_LatuffDia da Consciência Negra – 20 de novembro

                                                                                                                                    Clarice Villac 

Tenho visto amigos e pessoas próximas a dizer que é bobagem no dia 20 de novembro ser comemorado o Dia da Consciência Negra, que o que vale é a consciência humana, que é de toda cor, etc.

Penso que não podemos perder de vista que vivemos, sempre, num processo histórico. Ah, sim, todos sabem disso.

Mas se hoje é necessário que se pense sobre o ser negro no Brasil, talvez depois que todos tenhamos entendido as reais implicações, e quando vivermos em verdadeira harmonia multicolorida, até queiramos continuar comemorando o 20 de novembro, e celebrar que tudo está bem.

Você fica contente quando alguém se lembra de seu aniversário, e lhe deseja felicidades? Um dia especial.

Quando fui visitar o Parque Iguazu, na Argentina, e chegou a minha vez de comprar ingresso, o moço do caixa se dirigiu a mim falando em inglês. Quando eu estava numa praia distante, em Búzios, duas moças, com jeito de quem decidiu ir viver lá porque é bonito, vieram me vender doce de leite, e eu apenas sorri e fiz que não com a cabeça, então perguntaram se eu era francesa, holandesa, estavam quase falando em outra língua comigo, mas me afastei…

Ao entrar no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, passei direto pelo guarda, com minha mochila e tudo mais, porém minha ex-aluna, negra, precisou abrir a bolsa, mostrar o conteúdo… Depois, fomos tomar um lanche na requintada cantina de lá; no balcão, fui prontamente atendida, mas demorou muito até que alguém desse atenção à minha companheira – tínhamos nos separado um instante, cada uma buscando o que ia querer na vitrine – e, o meu lanche chegou bem rápido, o dela demorou, mas o suco dela demorou mais ainda… não lhe davam a atenção devida.

Desde criança, noto em minha família os traços dessa discriminação, e teria muitas histórias para contar. Hipocrisia imperando, sempre.

Apesar de me vestir com simplicidade, de estar quase sempre preocupada com as contas a pagar, tenho aparência de estrangeira aqui no Brasil. Mil vezes fiquei sem graça ao ver pessoas de minha família sendo arrogantes…

Quando lecionei em escolas públicas municipais de cidade pequena do interior paulista, escolas afastadas, no meio rural ou quase, conheci por dentro comunidades em que a maior parte das pessoas são afrodescendentes, ou migrantes nordestinos. Gente que sempre teve, através de várias gerações, poucas oportunidades de estudos, de estabilidade financeira, de progredir na hierarquia social.

Em estudos antropológicos, constata-se que ‘a imagem de si’ desses sujeitos é muito distorcida pelos valores da elite social dominante, que se acostumou a tratá-los como subalternos, indignos e por aí afora.

Então, temos sim uma dívida imensa com esses brasileiros afrodescendentes, e por isso precisamos deste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, para podermos parar tudo e pensar sobre esta situação.

Ah, e hoje à noite, experimente sonhar que você, qual personagem kafkiano, se transformou num afrodescendente, e tente ir por seus caminhos e lidas rotineiros para ver o que acontece…

Clarice Villac
20.11.2013

imagem : arte de Carlos Latuffhttp://latuffcartoons.wordpress.com/

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2 respostas para Dia da Consciência Negra – 20 de Novembro – Clarice Villac, cartum de Carlos Latuff

  1. sebastião Alves Ribeiro disse:

    Clarice Villac, boa tarde. Muito interessante suas falas, no entanto, gostaria, se me permite, fazer umas colocações. Sou mameluco, e como tal, não sou uma raça pura, mas não sou tão descriminado aqui no Brasil como seria nos EUA, onde detestam mais os mestiços que os negros. Bem, na verdade sinto na pele uma descriminação mais forte que o racismo e que ninguém presta atenção: sou ateu, e isso ninguém aceita. Negros, índios, ciganos, mestiços, estupradores, assassinos etc: todos ainda conseguem um lugar qualquer ao sol da sociedade, caso dizem crer em um deus ou em Deus. ” – O quê? Você é um ateu? -Sim , sou um ateu, mas procuro ser justo e não faço mal a ninguém. -Mas não importa, é preferível ser um canalha a um ateu”.  Mas quanto a questão dos negros, não acho que tenhamos uma dívida para com eles. Se assim for, eu deveria concordar em ser culpado pelo crime que o Adão cometeu lá no paraíso. Devemos sim reparar o dano causado que resultou num estigma que dificultou seu avanço até os dias de hoje. As coisas mudaram, e agora eles tem a mesma chance que as outras raças, mesmo que precisam de um empurrão da sociedade até se firmarem por completo. Quanto a discriminação, quanto mais se preocupam com isso mais chamam a atenção. É como um apelido. Eu já não ligo mais quando dizem que vou queimar no inferno por ser ateu. Que se dane todo mundo! Sou excomungado por brancos,  vermelhos, pardos, judeus (e até negros, que se dizem vítimas da tal descriminação). Pra você vê. Outro dia um amigo negro me chamou a atenção por eu ter dito que ele, sendo de cor preta, estava em melhor posição que eu. Não gostou do termo “preta”, e que eu deveria dizer “negra”, como se negra fosse cor e não raça. A coisa tá assim, aglomerado irregular não é favela, e preta não é cor.A Consciência Negra deveria se conscientizar dessa coisas. Muitos irão deturpar minha mensagem, mesmo deixando claro que sou ateu, mestiço, e que condeno a intolerância racial. Sou poeta, escrevi versos para os índios, para os negros, judeus e, claro, puxei a brasa para os mamelucos. Gosto por demais de Castro Alves. Mas não tem jeito, só se presta tenção nas palavras que  convém para processar, xingar, aparecer, se vitimar. Todos deveriam se sentir como me sinto: não me sinto brasileiro nem estrangeiro, sou terráqueo. Viva o Dia da Consciência Negra!

    No ensejo: como faço para postar uns versos ai no site?

    Obrigado, parabéns pelo seu texto e grande abraço.

    Sebastião Ribeiro

    • claricevillac disse:

      Sebastião, agradecemos sua visita e comentários, pontos de vista.
      Você poderia postar os versos como comentário, onde achar melhor, e se estiverem dentro da proposta do Cantinho Literário SOS Rios do Brasil, publicaremos aqui no blog como postagem individual, com os devidos créditos.

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