Coruja – William Henrique Stutz, foto de Maria de Lurdes Frezza

CORUJA BURAQUEIRA_lurdes_ e_santino_frezza
Coruja

                                                                    William Henrique Stutz – Uberlândia, MG

                      “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
– José Saramago

Tenho fascínio por animais estigmatizados. Carregam em si mitos e lendas. Não bastassem escorpiões, morcegos serpentes e aranhas, parte de meu dia a dia de trabalho, tenho paixão por corujas. Talvez pelo fato de eu mesmo, de vez em quando, ser um outsider. As mães-coruja, estas eu admiro com reservas, pois, normalmente, são dominadoras e acabam criando pestinhas. Cabem exceções. Jamais incorreria em injusta generalização. Pode-se muito bem ser mãe ou pai-coruja no amor, no cuidado, no carinho, sem deixar filho com manhas e sem norte. Pensando bem, as que estragam seus filhos são minorias.

Minha paixão é pelas corujas. Estas aves de rapina imponentes que, além de seres viventes especiais, carregam o peso de forte simbologia, perdendo para poucos representantes do reino animal. Em minhas redes sociais, posto fotos, lá estão sempre presentes. Talvez percam para escorpiões e insetos, com suas cores, formas e belezas escondidas, às vezes, só detectadas por lentes macro, capazes de expor caprichos da natureza em detalhes deslumbrantes.

Como mascotes da divindade grega Athena, corujas conquistaram título de símbolo da sabedoria. Além disso, meu quase homônimo Willian Meng – diferença de uma letra – nos conta: “Os gregos consideravam a noite como o momento do pensamento filosófico e da revelação intelectual e a coruja, por ser uma ave noturna, acabou representando essa busca pelo saber.” Para outros tantos, coruja é sinal de mau agouro, de azar e morte. Pio de coruja então, morte certa por perto. Na idade média, eram vistas como bruxas disfarçadas e, quando davam o azar de serem capturadas, eram amarradas e deixadas presas sem água ou alimento, para morrer em sofrimento.

Cada cultura via a coruja de uma maneira. Os romanos como sinal de derrota em batalha, já os gregos prenunciavam vitórias quando na sua presença. Não existe caracterização de Merlin sem poleiro dela em seu laboratório. Edwiges era o nome da coruja de Harry Potter, que de ruim nada tinha.

Gosto de corujas. Seu canto acalma e embalou anos a fio o sono de meus filhos. Toda noite, minúscula Caburé pousa no telhado de casa e lá fica a piar horas a fio. O dia que não vem, fico apreensivo com seu bem-estar. Sinal de chuva forte ou frio bravo.

Ganho tempo precioso observando corujas buraqueiras cuidando de toca e cria. As acompanho à caça. Certeiras no voo, dificilmente um rato foge de seu ataque. Quando em vez, vejo uma tomando couro de passarinho miúdo em defesa de seus próprios pequeninos. Certa feita, durante captura de escorpiões, descobri toca de coruja em cemitério, jazido abandonado. Quase me matou de susto. Cabeça baixa, cuidando de meu trabalho. Quando levantei o olhar, lá estava a palmo e meio de meu nariz. Arrepiada, asas abertas se fazendo o dobro em tamanho. Caí sentado, coração a mil. Depois, recuperado, apreciei e fotografei a bela em plenitude.

Discretas, silenciosas, fiéis. Assim são as corujas. No Brasil, existem 24 espécies de corujas, muitas ameaçadas. Não carece nem apontar culpados. Pesquisadores em corujas brasileiras relatam: “Um casal de corujas-buraqueiras consome de 12,3 mil a 26,2 mil insetos, e de 540 a 1,1 mil ratos por ano”. Muitos deveriam se espelhar nas corujas. Mais discrição, atenção, préstimo e lealdade.

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* imagem: filhotes da Athene cunicularia que estavam reconhecendo o terreno em frente à sua moradia, por Maria de Lurdes Frezza e Santino Frezza.

Para ver fotos de aves por Santino Frezza: http://www.wikiaves.com.br/perfil_sanfrezza

* Mais William Henrique Stutz : http://cerradodeminas.blogspot.com.br/

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