Crise da Água em SP: “Estado segue modelo há 20 anos e deve assumir que causou crise hídrica” – entrevista com Hamilton Rocha, por Renan Fonseca

Hamilton Rocha
Para Hamilton Rocha, perda de 30% da água produzida e torneiras secas resultam da falta de investimento pela Sabesp.
Foto: Andris Bovo
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Estado segue modelo há 20 anos e deve assumir que causou crise hídrica


ABCD MAIOR – Após mais de um ano que a crise hídrica se agravou, qual sua avaliação das ações tomadas pelo governo do Estado e Sabesp?

Hamilton Rocha – Transferência de lucros para as bolsas de valores de São Paulo e Nova York, manutenção do índice de desperdício de água no sistema, explosão de casos de diarreia, pior ano com surto de dengue na Região Metropolitana de São Paulo, racionamento seletivo que atinge principalmente bairros e cidades com população de baixa renda e absoluta falta de transparência e acesso à participação cidadã na solução da crise. Este é o balanço de mais de um ano de crise de abastecimento de água potável em São Paulo. Infelizmente.

A Sabesp é uma empresa mista e o Estado detém mais de 50% das ações. A empresa anunciou queda nos lucros, com a redução do consumo de água. Como avalia essa postura, em que a água é tratada como bem de consumo?

Somos contra este modelo de gestão. Absolutamente contra. O modelo imposto desde 1995 pelas gestões do PSDB em São Paulo é a principal causa da crise que vivemos. Uma empresa pública que prioriza lucro não consegue prestar serviços adequados à população. A Sabesp durante estes 20 anos se reorganizou cortando pessoal, terceirizando setores estratégicos que serviam para a manutenção da qualidade do serviço e sucateou estes mesmos serviços colocando em risco o trabalho e os equipamentos de abastecimento e esgoto. Se hoje temos 30% de perda de água ou se temos regiões onde a água demora dias em chegar isso se deve, principalmente, à falta de investimentos em equipamentos novos e substituição de outros, velhos, que causam perdas e contaminação na rede de abastecimento. O que importa à Sabesp é manter o lucro, mesmo que isso custe a vida de pessoas que hoje, além de falta de água, morrem pela contaminação resultante do corte da água que provoca infiltração de águas contaminadas do solo ou de esgotos. É um crime em nome do lucro!

Em algumas obras contra a crise hídrica as contratações acontecem de forma emergencial, sem licitação. Até que ponto o Estado age de forma correta?

Segundo a lei, Alckmin pode fazer estas obras, mas legal não quer dizer legítimo. A absoluta falta de transparência nos orçamentos produzem uma enorme desconfiança nos diversos setores que hoje se preocupam pela situação do fornecimento de água para a população.

A redução no consumo de água surgiu principalmente após alertas na mídia. A população sofreu algum tipo de prejuízo com a crise hídrica além da diminuição do abastecimento?

A população sofreu, e muito, mas a economia de água vem pela penalização do pequeno usuário, e não pelos alertas da Sabesp. O grande consumidor que são empresas como Volks, Shopping Eldorado, Rede Globo entre outras 500, continuaram tendo descontos por uso e nenhuma recomendação de diminuição de água. Recebem até bônus por gastar mais em plena crise! Mas o pequeno usuário, ao não ter mais remédio, se adapta à nova realidade para seguir sobrevivendo.

Como os movimentos sociais têm se articulado para acompanhar os desdobramentos da crise hídrica?

Há uma boa articulação entre os vários coletivos que foram criados durante 2014 e 2015 e agora se juntaram para fazer denúncias relativas ao descaso do governo tanto ao Ministério Público quanto à ONU. É o Caso do nosso “Coletivo de Luta pela Água”, “Aliança pela Água” e “Assembleia Estadual da Água”. O curioso é que a cada dia que passa descobrimos vários movimentos locais que aderem ao nosso Coletivo, por exemplo , por absoluta falta de referência a quem reclamar.

Como os movimentos e coletivos podem ajudar a população a compreender melhor as ações do poder estadual?

Realmente não é fácil. Há uma proteção blindada da ação nefasta do governo do Estado. Esta proteção vai desde o Judiciário que engaveta as ações contra o governo, Sabesp e Cetesb, passando pelo Legislativo. O que tratamos de fazer é procurar canais alternativos de difusão de notícias, no nosso perfil no Facebook, para fazer as denúncias e reproduzir matérias que muitos jornalistas independentes fazem denunciando esta situação. Além disso, iniciaremos uma pesquisa sobre a situação da falta de água e esgotos nos bairros como uma forma de alertar a população e propor a auto-organização na forma de Comitês de Luta pela Água em cada bairro e região, de forma que localmente possamos levantar uma pauta de reivindicações para ser entregue ao Alckmin, à Sabesp ou mesmo às prefeituras implicadas neste processo.

A Sabesp pressiona Mauá, Santo André e Guarulhos por não terem, supostamente, economizado água o suficiente. Como avalia essa iniciativa?

A relação de prestação de serviços que a Sabesp tem com estas cidades é diferente da cidade de São Paulo porque fornecem água, mas o serviço de abastecimento e esgoto direto nos logradouros são companhias municipais. Não conheço os detalhes, mas tudo indica que se trata de retaliação política, mais do que questões de “economia” de água.

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* 12/08/2015 20:49 – Por: Renan Fonseca (renan.fonseca@abcdmaior.com.br)

fonte: http://www.abcdmaior.com.br/materias/cidades/estado-segue-modelo-ha-20-anos-e-deve-assumir-que-causou-crise-hidrica

https://www.facebook.com/pages/Coletivo-de-Luta-pela-%C3%81gua/717220638375260?ref=profile

(matéria enviada pelo amigo Daniel Soares)

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Uma resposta para Crise da Água em SP: “Estado segue modelo há 20 anos e deve assumir que causou crise hídrica” – entrevista com Hamilton Rocha, por Renan Fonseca

  1. mariel disse:

    Digamos que o Estado assuma. “Sim, a culpa é nossa”. Acontece o que? Ganhamos direito a um proceso, alguém vai preso, o que ocorre?

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