Mar de Lama – SantinoFrezza

PAISAGEM SANTUARIO CARACA_mg_santio_frezza

Vista parcial da RPPN a partir da janela de um dos alojamentos do Santuário.

Mar de Lama

                                     Santino Frezza

O Parque Natural do Caraça, situado nos municípios de Catas Altas e Santa Bárbara, Minas Gerais, abriga em suas terras o Santuário do Caraça.

O local, de beleza impressionante, cheio de histórias e um relato vivo da História, é também farto de emoções. A emoção maior é ver – ou participar – de um quase ritual à meia-noite no átrio da igreja. Religiosa e pontualmente, o lobo guará comparece para alimentar-se de uma porção de carne que lhe é oferecida em uma bandeja. Pouco antes da hora marcada, o acepipe é colocado no centro do átrio, as luzes são apagadas e os visitantes, sentados ao redor e em completo silêncio, aguardam a chegada triunfal do personagem idolatrado.

LOBO GUARA_mg_santino_frezza

Lobo guará em plena ação. Emocionante!

Após alguns uivos como que anunciando o início do show, ele entra e, meio vacilante e com indisfarçável timidez, observa o ambiente, aprova o que vê e inicia sua refeição. Neste ponto, o espocar dos flashes não lhe incomoda. O que incomoda os circundantes é o bater forte de cada coração: emoção em altas doses. Estômago forrado, o personagem maior deixa lentamente o local, tão imponente como havia entrado.

Logo em seguida, outro personagem, não tão tímido, entra sorrateiramente no palco e vai alimentar-se do que sobrou na bandeja: é a jaritataca, uma espécie de gambá. Satisfeita, sai tão sorrateiramente como havia entrado. Findo o espetáculo, o silêncio ainda perdura por um tempo, até que a emocionada plateia recupere a fala e comemore a apresentação.

JARATATACA_mg_santino_frezza

Jaratataca aproveitando as sobras deixadas pelo lobo guará.

Assisti a esse espetáculo há alguns anos e não há como esquecer. Volta e meia revejo as fotos que fiz, é a memória digital reavivando a memória biológica.

No início de 2014, estive novamente na região, tendo visitado a linda cidadezinha de Catas Altas, com seu casario colonial e a pacatez tipicamente mineira. Neste passeio a emoção esteve de volta, agora em sentido contrário, uma mistura de raiva, revolta e impotência.

A causa deste sentimento é a devastação gigantesca que a mineração comete na paisagem. O Morro do Caraça, que faz parte de uma RPPN – Reserva Particular do Patrimônio Natural, uma Unidade de Preservação privada cujo proprietário recebe benefícios fiscais e, portanto sujeita a restrições de uso, está sendo destruído em uma de suas faces pela exploração mineral desenfreada. O Caraça deve seu nome à figura em forma de uma cabeça gigante que se avista de determinado ângulo.

MORRO DO CARACA_mg_santino_frezza

Face do Morro do Caraça vista a partir de Catas Altas. Na margem esquerda da foto vê-se o início do desmonte.

Em Catas Altas, encontrei-me casualmente com uma pessoa que tem interesses no negócio de mineração. Durante nossa conversa, comentei sobre a desfiguração do morro, em tese protegido pelas normas que regem as RPPNs. O cidadão disse que as mineradoras estão respeitando as restrições, pois, segundo ele, a face que mostra a figura do Caraça será preservada. Hum, sei, sei…

Na volta, em direção a Mariana, vi, da estrada, algo assustador. Num vale à beira da rodovia, um imenso lamaçal, de um marrom escuro, sinistro, perdia-se de vista ao pé das montanhas. A visão provocou-me uma reflexão imediata: até quando esse absurdo vai ficar aí? Será possível limpar essa área algum dia, ou, pelo menos, amenizar o aspecto nojento?

Procurei um lugar para estacionar o carro e fazer algumas fotos. Não deu, as estradas mineiras, em geral, não possuem acostamento e são cheias de curvas. Parar ali seria uma enorme imprudência, que poria em risco a vida das pessoas que me acompanhavam e de outras que por ali trafegavam.

Perdi a oportunidade de documentar aquela afronta ambiental que iria transformar-se em um imenso desastre pouco tempo depois. Não fiz as fotos da incúria empresarial, preferi resguardar a integridade das pessoas, naquele momento. Hoje, as fotos que deixei de fazer não fazem falta, há uma infinidade delas na mídia.

Este lamaçal de que falo era justamente a represa que se rompeu e comprometeu a vida de centenas de milhares de pessoas ao longo do Rio Doce. Rio que, de doce, ficou amargo. Mar de lama que em pouco tempo estará tingindo de marrom-sinistro o azul-céu do litoral capixaba.

A expressão “mar de lama” que uso aqui é também uma referência às origens da empresa causadora do desastre, que é assunto para outra oportunidade. Enquanto isso, o Caraça, o lobo guará e a jaratataca que se cuidem.

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Para ver  fotos de aves por Santino Frezza: http://www.wikiaves.com.br/perfil_sanfrezza

 

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