Trilhos da Algia – crônica de Pedro Brasil Jr.

trem

Trilhos da Algia

………………………………..– Pedro Brasil Jr.

Não tinha nada ao redor, mas era o caminho que levava a tudo.
Norte encoberto pelas nuvens, chuva aparente.
Sul esquecido pela visão do que ficara para trás.
Ao leste e oeste uma vastidão de verde e montanhas.
Menino ainda, pela janela do vagão ia observando aquela paisagem aparentemente tão vazia, mas por outro lado, tão cheia de histórias.
Em cada novo trecho os solavancos do rodado de ferro nas divisões entre os trilhos. A fumaça da máquina às vezes dava pinceladas na janela e a paisagem ficava fora de foco.
Fazendas, cavalos, vacas, carneiros e cachorros que ladeavam a composição latindo alto para espantar aquele bicho de ferro de seus territórios.
Íamos sobre os trilhos para algum lugar em que eu jamais estivera, mas a viagem tão longa e cansativa tinha mais uma daquelas missões de cura.
Minha saudosa mãe ia em busca de um curandeiro cuja fama ultrapassara aquelas montanhas e, em se tratando de doença, todas as tentativas são válidas.
A Maria Fumaça cuspia fogo e logo, o entardecer foi tomado pela cortina da noite. Um breu completo onde a gente não sabia mais por onde ia. Sabia-se que havia trilhos e que aquilo tudo dependia deles para chegar a um destino.
De Palmeira à Jaguariaíva foram muitas horas de uma viagem diferente que por razões diversas deixou muitas marcas na minha alma poeta.
Eu tinha lá uns 6 ou 7 sete anos e achava que o mundo era apenas e tão somente aquela imensidão por onde singrava o trem.
Noite densa e uma parada numa estação rústica. Homens, mulheres e crianças descendo e subindo. Gente com malas enormes ou levando apenas uma sacolinha de pano. Em cada um uma história, um destino, uma esperança…
E o trem, agora baforando vapor, começou a se mover outra vez. Um sino, um apito e a distância a ser concluída.
Dormi! E fui viajando pelos meus sonhos de menino. Acordei em outras paragens, casebre quase caindo, centenas de pessoas sentadas no chão, homens fazendo um cigarro de palha…
Mulheres sofridas, crianças doentes, homens se apoiando em suas muletas…
Dor e sofrimento reunindo tantos em torno da esperança.
Sim; viver é preciso e para tanto, a saúde é fundamental.
Distância retomada e o regresso só foi diferente pela ansiedade de chegar em casa, naquele porto seguro de cada um de nós.
Minha mãe não se curou desta feita, mas a Maria Fumaça continuou, dia após dia o seu trajeto de levar e trazer esperançosos, sonhadores, lenhadores, vaqueiros e até uns pretendentes a se tornar escritores.
Eu estive por lá e ainda sou capaz de ouvir aquele sino e aquele apito trocando notas com o poder da máquina, o ranger das rodas de ferro e até o choro de uma criança com fome.
O tempo se foi, os trilhos foram tomados pela mata e a possante Maria Fumaça foi esquecida num desses galpões onde tudo se encerra.
Mas eu; graças a Deus, continuo minha doce viagem através dessas escritas…
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– Pedro Brasil Jr., Curitiba, 13.01.2017.
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http://guardiaodoportal.blogspot.com.br/

 

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Uma resposta para Trilhos da Algia – crônica de Pedro Brasil Jr.

  1. Santino Frezza disse:

    Muito boa essa crônica, parece que já vi lugar assim.

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