Na dimensão do vento – Pedro Brasil Jr

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Na dimensão do vento

                                           Pedro Brasil Jr.

Que me permita este dia em todo o seu esplendor, que neste início de tarde ensolarada e com um soprar diferente do vento, possa eu me dar ao luxo de parar no tempo e criar na moldura da janela uma tela multicor com todas as primordiais cenas que se foram. Algumas ainda ontem, outras na semana passada e muitas outras nos meses cujas folhas arranquei do calendário.

Há um sibilar quase inaudível nesta prosa com o vento, mas eu consigo ouvir sua mensagem toda própria.

Hoje não sou mais quem eu fui no passado. Havia ilusões que encobriam as verdades que nos cercam. Havia um caminhar pelas ruas com total despreocupação, e as pessoas pareciam viver de verdade, sem atribulações; sem maiores problemas do que, por exemplo, arrumar uns trocados para levar pão e leite para casa ao final do dia.
Não havia desconfiança a respeito do desconhecido que vinha pela calçada em sentido contrário e a sombra da gente era simplesmente a sombra.

Nesta janela por onde minha visão se perde vou, aos poucos, trocando as páginas deste álbum de imagens e fazendo descobertas novas sobre tanta gente que já partiu ou daquelas que simplesmente deram as costas e seguiram seu norte.

Então um silêncio profundo e amargo toma conta do ambiente e eu ouço o palpitar do meu coração e percebo que em toda a estrutura neurológica acontecem movimentos extraordinários que rapidamente reorganizam os arquivos da mente, da alma e do próprio coração.

Sim; eu lembro, eu revivo e de tudo ali retiro lições para prosseguir.
Existem instantes em que eu olho para o meu amor e lhe faço um apanhado de questionamentos. E fico sempre sem as respostas, porque aceitando ou não, elas estão todas definidas em minhas perguntas. Então respiro fundo e concluo que não existe outra maneira senão seguir amando, mesmo que a correspondência não esteja à altura, mesmo que falte um sorriso franco, um beijo verdadeiro, um abraço daqueles tipo quebra-ossos ou então; de um momento de entrega que possa levar a gente a uma outra dimensão.

O vento que sopra, que canta, que levanta telhas é o mesmo que leva as folhas secas para longe, para uma dimensão toda própria enquanto por aqui os talos se preparam para eclodir novas e verdinhas folhas. Então o amor deve ser bem assim; um amontoado de folhas secas ao léu, ao sabor do vento porque mais à frente nascerão folhas novas que vão trazer novas histórias.

E eu sigo aqui estático diante de minha moldura neste começo de tarde com céu azul, canção do vento e dança da copa do arvoredo. Minha tela fica concluída, mas é um emaranhado de tantas cores que não se pode definir absolutamente nada. Mas eu sei que ali está toda a essência da minha vida, da vida dos que me cercam, da vida dos que um dia estiveram pelo meu caminho e a vida de tantos outros que passaram rapidamente para deixar uma ínfima folhinha, resultado da robustez de suas árvores que chegaram em forma de eternas e proveitosas lições.

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http://guardiaodoportal.blogspot.com.br/

Imagem enviada por Pedro Brasil Jr.

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