Quando a moringa suava – crônica de Pedro Brasil Jr

moringa_d_agua

Quando a moringa suava

                                                Pedro Brasil Jr – 24/01/2019

Quando menino morei num interessante solar construído em madeira na época da escravidão, então localizado na cidade paranaense de Palmeira. Nele, segundo consta nos anais da história, residiram naqueles tempos o Barão e sua esposa. Não tenho como precisar seus nomes porque pouco sobre a história deles se sabe, a não ser que tiveram um filho e que, como era costume, o enviaram à Europa para estudar. Ele nunca mais regressou, o casal veio a falecer e a Fazenda Baronesa ficou de propriedade da União. Mas ali a gente ainda escutava em noites misteriosas o barulho de tambores rolando numa ladeira de macadame, e cuja atribuição se dava ao castigo que muitos negros escravos recebiam daquela maneira.
Hoje nada mais daquilo existe. Soterraram páginas importantes da nossa história, como é de costume que o façam neste Brasil sem fim.
No casarão havia um enorme fogão a lenha que durante aqueles invernos rigorosos nos permitia ficar bem aquecidos. Mas nos tempos de verão escaldante tudo o que a gente desejava era ter água gelada, mas como não havia energia elétrica tudo ficava complicado. Tínhamos geladeira que era movida a querosene e não gelava a contento. Energia elétrica se fazia presente das 19 às 22 horas, oriunda de um pequeno gerador movido a óleo diesel. Os lampiões e lanternas eram os reis do pedaço e, além da água que surgia pelas torneiras, bombeada de um “burrinho” lá no rio distante, o que nos salvava era a água então armazenada numa linda moringa de barro. Em dias quentes a moringa transpirava e a água em seu interior era bem gelada, digna de matar toda e qualquer sede.
Quando deixamos a moradia na fazenda e viemos para Curitiba a moringa veio junto, e ainda brilhou em nossa casa por longos anos até que um dia, por um desses descuidos da vida, alguém a derrubou e lá se foi para sempre a sua história de matar a sede em dezenas de cacos. Nunca mais tivemos em casa uma moringa, e nem eu nestas minhas andanças cheguei a topar com alguma para levar para casa e através dela relembrar aquele maravilhoso período de nossas vidas.
Quantas águas estiveram no interior daquele moringa da fazenda. Às vezes imagino que um enorme percentual daquele rio veio até ali para nos visitar através da cristalinidade de sua água tão pura e saborosa.
Para quem não sabe, o termo “moringa” é de origem indígena e, tantos os índios quanto os negros escravos fabricavam suas próprias moringas para ali armazenar o líquido mais importante que Deus nos ofereceu gratuitamente. Os portugueses que aqui chegaram também já fabricavam suas moringas, mas o nome delas era “bilha” e juntando todas, a gente tem pela frente todo um valor histórico sem precedentes no que diz respeito à criação de um objeto para se colocar água e ter direito, depois de um pequeno suadouro, àquele maravilhoso líquido que significa, juntamente com o ar, a nossa real perspectiva de seguir vivendo.
Esta moringa da foto foi postada em 24 de janeiro de 2018 pela minha irmã Marina, ainda viva e lutando contra sua doença. Lembro que o fez porque, apesar de ter vivido pouco naquela fazenda, nas ocasiões em que lá se encontrava também usufruía da água geladinha.
De repente fica aqui a sugestão para quem gosta de água purinha e gelada, para que encontrem uma moringa por ai. Além disso, ela também pode se tornar um lindo objeto decorativo para sua copa ou cozinha. E tem também o famoso filtro de barro, mas isto é história para que a gente conte em outra ocasião.

______________

http://guardiaodoportal.blogspot.com.br/

Imagem enviada por Pedro Brasil Jr.

Esse post foi publicado em Crônicas, Prosa e marcado . Guardar link permanente.

5 respostas para Quando a moringa suava – crônica de Pedro Brasil Jr

  1. mariel disse:

    Boa história. Agora espero a do filtro de barro

  2. Norma Bruno disse:

    Bela e poética essa metáfora do rio dentro da moringa. Grata por me fazer recordar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s