Sobre tiês, sanhaços e outros bichos – crônica e fotos de Santino Frezza

SANHAÇOS NO COMEDOURO_Santino_Frezza_m

Sobre tiês, sanhaços e outros bichos

                                                                                                                      Santino Frezza

Meu primeiro contato com a atividade de observação de aves deu-se na Chapada dos Guimarães, Mato Grosso. Estava lá para curtir a paisagem exuberante e fotografar cachoeiras, que pretendia ser meu hobby depois da aposentadoria. No pátio de um restaurante ao lado de uma belíssima queda d’água, notei um pequeno grupo munido de binóculos e câmeras apontados para uma direção em que, pensei, nada havia de interessante. Eram estrangeiros observadores de aves, fiquei sabendo. Achei aquilo meio estranho, esquisito. Tem cada gosto!

Tudo mudou quando em outra chapada, a Chapada dos Veadeiros, em Alto Paraíso de Goiás, vi e fotografei uma ave diferente, cuja espécie ninguém do local soube identificar. Zapeando pelo santo protetor das necessidades de conhecimentos urgentes, embora superficiais, o todo poderoso São Google, deparei-me com o WikiAves, que me informou ser aquela ave um lindo japu. Paixão à primeira consulta!

O melhor da observação de aves é andar pelas estradinhas de terra, curtir a paisagem, respirar o ar puro, frequentar pousadas simples em lugares pitorescos. Como prêmio, ver e fotografar essas belezas aladas da natureza e, eventualmente avistar outros animais silvestres, além de conhecer pessoas interessantes e fazer amizades ótimas.

Nunca me esqueço de uma jararaca, à noite, no meio de uma trilha enquanto fazíamos, em grupo, nossa atividade de observação de aves. Observávamos pássaros e a jararaca observava nossos passos. Fotografei até um gato mourisco em outra ocasião. Em mais outra, uma irara chegou a cheirar meu traseiro quando estava absorto em observar um pássaro. Bugios, macacos-prego, micos, veado e outros animais já fizeram parte dessas andanças. Até já tive que correr para fugir de cachorros bravos de fazenda. O bando de macacos-prego, aliás, foi causador de uma amizade das mais profundas, sinceras e respeitosas, que espero jamais perder.

Esse prazer foi bruscamente interrompido pela pandemia, que nos obrigou a cumprir rigoroso isolamento social. Não há, no entanto, perdas que não tenham sua compensação.

Com o privilégio de morar em uma casa simples, porém em lugar tranquilo, próximo a vegetação abundante e com um quintal grande, comecei a receber visitas de muitas e muitas espécies de aves em comedouros que construí. Comedouros abastecidos com bananas, quirera de milho e painço.

Aos poucos, as aves foram chegando e chegando. Já contabilizei mais de trinta espécies, entre sanhaços, saíras, columbídeos, andorinhas, rapinantes e outras. Todas fotografadas sem sair de minha varanda.

Nessa nova condição, tive oportunidade de observar comportamentos de certas aves, algo difícil de fazer em campo aberto. O canário da terra, por exemplo, é pouco arisco. Aqui, vêm comer painço a trinta centímetros de minha mão. A fêmea é mais confiante, o macho um pouco mais arredio. Ele se achega sempre depois da fêmea. A fêmea come muito mais e descobri o porquê: ela enche o papo e leva o conteúdo para regurgitar no bico dos filhotes. Com o tempo, os filhotes que já aprenderam a voar passaram a vir com os pais. Um deles chegou primeiro e recebia comida no bico. Quando esse aprendeu a comer sem ajuda da mãe, apareceu o outro, que ainda era alimentado pela fêmea. O desenvolvimento não é igual para todos.

chupim com tico-ticop

Os chupins aparecem em grandes bandos, são vorazes comedores de quirera. Liquidada a quirera, descem para o gramado e passam a comer insetos. Jovens são alimentados no bico por tico-ticos. Esse comportamento não se dá por preguiça, como supõe o senso comum. Esses jovens, já quase adultos, tentam comer sozinhos, mas não conseguem engolir, o grão cai do bico. Não fosse o tico-tico ou outra espécie a ajudar, morreria de fome. É a natureza em sua marcha.

Demorei algum tempo para perceber que outro pássaro todo negro que comparecia aos comedouros solitariamente não era um chupim. Seu comportamento era diferente. Enquanto comia, agitava as asas rapidamente. Em uma das fotos, percebi as penas brancas na parte interna das asas e a mandíbula cor de louça. Um tiê-preto macho, não por acaso conhecido em algumas regiões como bico de louça.

Observando mais atentamente, percebi que o tiê-preto macho vinha sempre acompanhado da fêmea, de cor marrom e com o bico igualmente cor de louça. Um detalhe: eles sempre se alimentam em comedouros diferentes. Não comem no mesmo prato, como fazem chupins, sanhaços e saíras. Parecem ser meio avessos a intimidades.

Ledo engano, contudo. Não tardou a aparecer um filhote, com penas pretas mescladas com penas marrons. Há plena intimidade, sim, em ocasiões apropriadas. Chegam os três juntos ao quintal, o macho adulto em um comedouro, a fêmea em outro e o filhote macho aguardando sua vez na roseira próxima ao comedouro em que o pai tem preferência. Questão de respeito?

Os tiês chegam e esperam pacientemente os sanhaços-cinzentos que os antecederam a terminarem suas refeições. Quando chega sua vez, não admitem dividir o espaço com outros. Questão de ordem?

Os sanhaços-cinzentos, por sua vez, alimentam-se em bandos de seis ou sete indivíduos. Concluí que os bandos pertencem a famílias diferentes, pois não aceitam a companhia de alguns outros da mesma espécie. Há bandos que voam de ou para uma direção, outros que voam no sentido contrário. Famílias diferentes, portanto, e não se misturam. Clãs? Tribos?

TIE-PRETO JOVEM_7086p

Voltando aos tiês-pretos, o jovenzinho já é um quase adulto, suas penas marrons estão dando lugar às penas pretas. Por enquanto, espera na roseira o pai terminar o almoço.

A roseira é pouso seguro para várias espécies que esperam a vez de se fartarem nos comedouros. Parafraseando o poeta, digo que na roseira nascem espinhos, mas nascem também as flores, nela pousam passarinhos, uma sinfonia de cores.

Escrevi ali em cima que perdas têm compensações. Neste caso, aprendi a ser mais paciente, a ser mais disciplinado e sobretudo a cumprir com rigor o isolamento. Saúde acima de tudo! As observações quase passaram a seguir o método científico. Falta ainda fazer observação sistemática, com anotações de data e hora, número, condições climáticas e outras exigências. Espero que a pandemia não dure tanto.

*****

Em tempo:

Dedico estas mal traçadas à Lu, que há mais de meio século me acompanha pelas estradinhas da vida.

Também à Clarice Villac, amiga e incentivadora.

Avaré, SP, Junho 2020.
_______________

Para ver mais fotos de aves por Santino Frezza:
http://www.wikiaves.com.br/perfil_sanfrezza

 

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Uma resposta para Sobre tiês, sanhaços e outros bichos – crônica e fotos de Santino Frezza

  1. jorgesapia disse:

    Que beleza e que alegria!

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