O porquê da violência no ser humano e na sociedade – artigo de Leonardo Boff; fotos de Santino Frezza

TORORO_santino_frezza

Tororó

O porquê da violência no ser humano e na sociedade

                                                                                                 Leonardo Boff, 17/06/2017

Vivemos no nível nacional e mundial situações de violência que desafiam nosso entendimento. Não apenas de seres humanos contra outros seres humanos, especialmente no Norte da África, no Sudão, no Oriente Médio e entre nós mas também contra a natureza e a Mãe Terra. O Papa Francisco em sua encíclica ecológica Sobre o Cuidado da Casa Comum escreveu acertadamente:”Nunca maltratamos e ferimos a nossa Casa Comum como nos últimos dois séculos” (n.53). Não sem razão que está se impondo a ideia de que inauguramos uma nova era geológica, o antropoceno segundo o qual o grande meteoro rasante ameaçador da vida no planeta é o próprio ser humano. Ele se fez o Satã da Terra quando foi chamado a ser o anjo bom e cuidador do Jardim do Éden.

FUMAÇA_Santino_Frezza

Fumaça – interior de SP

A existência da violência, não raro sob forma de aterradora crueldade, representa um desafio para o entendimento. Teólogos, filósofos, cientistas e sábios não encontraram até hoje uma resposta convincente.

Quero apresentar, sumariamente, a proposta de notável pensador francês que viveu muitos anos nos EUA e que faleceu em 2015: René Girard (1923-2015). Apreciava meus textos e a Teologia da Libertação em geral a ponto de ele mesmo ter organizado em Piracicaba-SP um encontro (25-29 de junho de 1990) com vários teólogos e teólogas, pois via nos propósitos deste tipo de teologia a possibilidade da superação da lógica da violência.

LIXO NO HORTO_Santino_Frezza

Lixo no Horto – interior de SP

De sua vasta obra destaco duas principais: “O sagrado e a violência” (Rio 1990) e “Coisas escondidas desde o princípio do mundo” (Rio 2005). Qual é a singularidade de Girard? Ele parte da tradição filosófico-psicanalítica que afirma ser o desejo uma das forças estruturantes do ser humano. Somos seres de desejo. Este não conhece limites e deseja a totalidade dos objetos. Por ser o desejo indeterminado, o ser humano não sabe como desejar. Aprende a desejar, imitando o desejo dos outros (“desejo mimético” na linguagem de Girard).

Isso se vê claro na criança. Não obstante os muitos brinquedos que possui, o que mais ela quer, é o brinquedo da outra criança. E aí surge a rivalidade entre elas. Uma quer o brinquedo só para si, excluindo a outra. Se outras crianças entrarem nesse mimetismo, origina-se um conflito de todos contra todos.

PRAÇA_Santino_Frezza

Praça – Lençóis Paulista, SP

Esse mecanismo, afirma Girard, é paradigmático para toda a sociedade. Supera-se a situação de rivalidade-exclusão, quando todos se unem contra um, fazendo-o bode expiatório. Ele é feito culpado de querer só para si o objeto. Ao se unirem contra ele, esquecem a violência entre eles e convivem com um mínimo de paz.

Com efeito, as sociedades vivem criando bodes expiatórios. Culpados são sempre os outros: o Estado, o PT, os políticos, a polícia, os corruptos, os pobres e por aí vai. Importa não esquecer que o bode expiatório apenas oculta a violência social, pois todos continuam rivalizando entre si. Por isso, a sociedade goza de um equilíbrio frágil. De tempos em tempos, com ou sem sem bode expiatório explícito, a violência se manifesta especialmente naqueles que se sentem prejudicados e buscam compensações.

Bem o expressou Rubem Fonseca em seu livro “O Cobrador”. Um jovem de classe média empobrecida, por força das circunstâncias, pratica atos ilícitos. Sente-se roubado pela sociedade dominante e confessa: “Estão me devendo colégio…sanduíche de mortadela no botequim, sorvete, bola de futebol…estão me devendo uma garota de vinte anos, cheia de dentes e perfume. Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei… sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo”.

Aqui busca-se uma solução individual para um problema social. Na medida em que permanece individual não causa grande problema. Pelo contrário, os causadores principais da violência estrutural  são as classes dominantes que acumulam para si à custa do empobrecimento dos outros. Quanto mais duramente se aplicam as leis contra os empobrecidos mais seguras se sentem. Destarte, conseguem ocultar o fato de serem  elas as principais causadoras de uma situação permanente de violência que o empobrecimento implica.

GARIMPO_santino_frezza

Garimpo – Lençóis Paulista, SP

Mais ainda, vivemos num tipo de sociedade cujo eixo estruturador é a magnificação do consumo individualista. A publicidade enfatiza que alguém é mais alguém quando consome um produto exclusivo que os outros não têm. Suscita-se um desejo mimético de se apossar do bem do outro.  Esta lógica perpetua a violência.

Mas o desejo não é só concorrencial, diz Girard. Ele pode ser cooperativo. Todos se unem para compartilhar do mesmo objeto. De concorrentes se fazem aliados. Tal propósito gera uma sociedade mais cooperativa que competitiva e uma democracia participativa. Aqui Girard via o sentido político da Teologia da Libertação porque propõe uma educação que não imita o opressor, mas se faz livre e ensina a não criar bodes expiatórios mas a assumir a tarefa de construir uma sociedade mais igualitária e  inclusiva. Então sim haverá mais paz que violência.

ARIRAMBA DE CAUDA RUIVA0_santino_frezza

Ariramba-de-cauda-ruiva

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Imagens : fotos por Santino Frezza , que gentilmente se dispôs a ilustrar este artigo fundamental de Leonardo Boff, e explica suas escolhas:

“A foto PRAÇA mostra como ficou uma praça em Lençóis Paulista depois que as águas de uma enchente gigantesca baixaram.
A foto GARIMPO mostra pessoas pobres “garimpando” material que foi descartado por moradores atingidos pela cheia.
Atribuo essa cheia à ruptura de barragens, várias em cadeia, construídas rio acima sem os devidos cuidados com o meio ambiente. As autoridades culpam São Pedro pelo excesso de chuva.
A foto LIXO NO HORTO mostra o estado de um horto florestal no interior de São Paulo depois da chuva.
Essas três imagens mostram, entre outras coisas, as falhas na coleta de lixo de ambas as cidades.

A foto FUMAÇA mostra o resultado de provável queima irregular de lixo na mesma cidade do horto.

Por fim, outras duas fotos de aves que selecionei para contrastar com as demais.”

Para ver mais fotos de aves por Santino Frezza:
http://www.wikiaves.com.br/perfil_sanfrezza

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Artigo publicado em:

https://leonardoboff.wordpress.com/2017/06/17/o-porque-da-violencia-no-ser-humano-e-na-sociedade/#comments

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e autor de A violência da sociedade capitalista e do mercado mundial, e articulista do JB on line.

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Sáude dos oceanos, cadeia alimentar, poluição – cartum de Fabiano dos Santos

cartum_ambiental_saude_oceanos_cadeia_alimntar_Fabiano Dos Santos

http://www.fabianocartunista.com/

http://fabianocartunista.wix.com/portfolio

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Completude – aquarela de Alexandre Zilahi, poema de Clarice Villac

Flor_ Aquarela_Alexandre_Zilahi

Completude

Em meio à escuridão,
silenciosa,
esplende a rosa.
Amanhecerá,
no azul
zumbirão abelhas,
borboletas e colibris
celebrando perfume
e pólen
dessa plena existência.
Efêmera ?
Intensa.

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Para Aquarela “Flor” de Alexandre Zilahi.
Clarice Villac, 06.06.2017.

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Para conhecer as outras artes de Alexandre Zilahi:

http://www.zilahi.com.br

no Youtube:
http://www.youtube.com/user/zilahi55

 

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Governo diz que greve foi fracasso. Mas aguenta esse “fracasso” todo mês?… – Leonardo Sakamoto

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Manifestação no Largo da Batata, em São Paulo, como parte das ações da greve geral desta sexta (28.04.2017). Foto: Ricardo Stuckert.

Após uma ação que divide opiniões, como uma greve geral contra as Reformas da Previdência e Trabalhista, é natural que grupos envolvidos declarem que ela foi um sucesso ou um fracasso. O que inclui governo, sindicatos, movimentos sociais, mídia. Essa disputa tem como objetivo tentar colar junto à sociedade um significado no que aconteceu para que, a partir daí, os desdobramentos caminhem na direção que cada grupo defende.

Contudo, por mais que “pós-verdade” tenha se transformado em um tema da moda, fatos seguem mais importantes que emoções. Registros de colegas repórteres que foram às ruas, por exemplo, mostraram que muitas cidades brasileiras reduziram suas atividades econômicas ao ponto de comerciantes, em entrevistas, afirmarem que a situação foi pior que em um feriado.

Parte do comércio nem abriu. Escolas e universidades, particulares e públicas, fecharam as portas. Bancários não foram trabalhar. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e algumas religiões protestantes pediram em suas missas e cultos para que os fiéis aderissem. Isso sem falar da trava logística de condutores e cobradores de ônibus, de metroviários e trabalhadores de trens e de alguns portos e aeroportos. Concordo com avaliações que afirmam que, ao contrário de greves que afetam apenas o transporte, nesta, diante da dificuldade de locomoção, muita gente teria ficado em casa sem tentar chegar ao trabalho. Pois, tal qual a música do velho Raul, sabiam que os outros também não estavam lá.

Internamente, o governo e aliados sabem que o movimento foi amplo e seus desdobramentos podem causar grandes danos. Por isso correm para pressionar parlamentares, de um lado, e tentar minimizar a greve geral em discursos, de outro, afirmando que não havia muitas pessoas protestando nas ruas e que ela foi tocada por “baderneiros” e “vagabundos”.

Demonstram, na formulação desse argumento, achar que a população não compreende nem de lógica, nem de logística. Se não havia ônibus e com metrô e trens funcionando parcialmente, como trabalhadores de bairros mais distantes chegariam a manifestações em regiões centrais? Além disso, deslegitimar uma massa de trabalhadores com xingamentos pode se revelar um tiro no pé.

Chamados de volta às ruas pelas jornadas de junho de 2013 e pelos protestos pró e contra o impeachment de 2015 e 2016, muitos passaram a acreditar que o sucesso de uma mobilização se mede pela quantidade de gente que toma a avenida Paulista, a Cinelândia, a Esplanada dos Ministérios.

Mas a greve, como protesto, funciona de outra forma: o objetivo não é a demonstração de força passada por imagens da massa tomando todos os cantos, mas o silêncio dos braços cruzados que não produzem e portanto, não geram riqueza. Daí, o tempo não gasto em trabalho, mas na negação dele com um objetivo claro, pode ser usado para o que o trabalhador quiser – tanto participar de protestos nas ruas quanto “abrir os trabalhos” num churrasco com os amigos.

Mesmo com menos transporte, garoa fina e frio, organizadores apontam para 75 mil pessoas no Largo da Batata, em São Paulo, no maior dos atos que ocorreram em vários pontos da cidade.

Outro elemento de disputa do significado da greve e de seus desdobramentos são as depredações ao final de atos em São Paulo e no Rio e a violência policial. Se todas ou a maioria das 75 mil pessoas na manifestação da capital paulista (que foi um dos elementos da greve, não o seu principal como já foi explicado), resolvessem ter jogado pedras ou tentado derrubar barreiras policiais que protegiam a casa de Michel Temer, teríamos duas situações: ou a casa não existiria mais (aliás, o bairro não existiria mais) ou a polícia causaria um dos maiores massacres da história ocidental contemporânea.

Ao tentar fazer com que a população acredite que um microgrupo de pessoas que não respondia aos organizadores da greve representava uma massa de professores, estudantes, motoristas, bancários, religiosos, entre outros, que marchavam em paz e sofrerão com as bombas lançadas pela PM, políticos e seus aliados querem deslegitimar todo o movimento.

Consequentemente, quem tem predisposição a criticar a greve ou pensa de forma binária (nós, os bons, contra eles, os maus), aceita o argumento. E, por outro lado, quem está bravo com o governo por conta das mudanças que virão nas aposentadorias, quer mais é que o país exploda.

Ao mesmo tempo, em capitais do Nordeste, como Salvador e Recife, e cidades do interior, parte do comércio fechou e muita gente foi às ruas – o que representou mais uma dor de cabeça aos já reticentes deputados federais e senadores da região. Muitos já acreditam que terão que escolher: aprovar a Reforma da Previdência do jeito em que ela está e ou se reeleger no ano que vem.

Não é possível dizer quantos aderiram à greve geral e quantos desistiram de ir ao trabalho devido à falta de transporte. No final, o resultado é que muita coisa parou e o país, definitivamente, não aguenta outras convulsões como essa. Ninguém em sã consciência gosta de greve, mas elas são o último recurso quando o diálogo está interditado.

Se o governo federal considera que a greve foi um fracasso e que, portanto, não tem razão para abrir o diálogo com a sociedade sobre as mudanças que defende na Reformas da Previdência e Trabalhista, então acredita que a mobilização de ontem não afetou a economia.

Portanto, não verá problema se greves gerais se tornarem periódicas. Semanais ou mensais talvez? Se isso acontecer, garanto que será mais fácil achar ônibus em dia de greve do que parlamentares e empresários apoiando o governo.

(Íntegra do texto, no post do blog: http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/04/29/governo-diz-que-greve-foi-fracasso-mas-aguenta-esse-fracasso-todo-mes/ )

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Todo dia é Dia de Índio – Alexandre Zilahi – Eyeline crayon e Aquarela

Todo dia é Dia de Indio _ Alexandre Zilahi

 

Todo dia é Dia de Índio 

Eyeline crayon e Aquarela. Estudo.

Alexandre Zilahi

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Para conhecer as outras artes de Alexandre Zilahi:

http://www.zilahi.com.br

no Youtube:
http://www.youtube.com/user/zilahi55

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Poente no Cais – Maria de Fátima Barreto Michels

cais do Centro Historico em Laguna_SC_Fatima_barreto

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Pensei que tinha um mar mas era só uma lagoa

Pensei que tinha remos mas eram apenas dois bambus

Pensei que tinha uma canoa de um pau só,

mas eu tinha era uma pequena bateira de tábuas

Quando afastei as lentes percebi que eu tinha mesmo

era um coraçãozinho esganado de fome de lindezas,

e que, por sinal, vai morrer disso!

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Imagem: poente no cais do Centro Histórico em Laguna, SC.

Texto e fotografia: Fátima Barreto

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RESPOSTA * Answer

Poesias e Cia - Ana de Lourdes Teixeira

maos 3      Ana de Lourdes Teixeira – Abril, 2017

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