Até os ventos contrários nos conduzirão ao porto seguro – artigo de Leonardo Boff; foto de Santino Frezza

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Revoada cabeças-seca  e colhereiros, por Santino Frezza, Tanquã, Piracicaba, SP, Brasil.*


Até os ventos contrários nos conduzirão ao porto seguro

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  –  Leonardo Boff, 20/09/2018.

O povo brasileiro se habituou a “enfrentar a vida” e a conseguir tudo “na luta e na marra”, quer dizer, superando dificuldades e com muito trabalho. Por que não iria “enfrentar” também o derradeiro desafio de fazer as mudanças necessárias, no meio da atual crise, que nos coloquem no reto caminho da justiça para todos.

O povo brasileiro ainda não acabou de nascer. O que herdamos foi a Empresa-Brasil com uma elite escravagista e uma massa de destituídos. Mas do seio desta massa, nasceram lideranças e movimentos sociais com consciência e organização. Seu sonho? Reinventar o Brasil. O processo começou a partir de baixo e não há mais como detê-lo nem pelos sucessivos golpes sofridos como o de 1964 civil-militar e o de 2016 parlamentar-juridico-midiático.

Apesar da pobreza, da marginalização e da perversa desigualdade social, os pobres sabiamente inventaram caminhos de sobrevivência. Para superar esta antirrealidade, o Estado e os políticos precisam escutar e valorizar o que o povo já sabe e inventou. Só então teremos superado a divisão elites-povo e seremos uma nação não mais cindida mas coesa.

O brasileiro tem um compromisso com a esperança. É a última que morre. Por isso, tem a certeza de que Deus escreve direito por linhas tortas. A esperança é o segredo de seu otimismo, que lhe permite relativizar os dramas, dançar seu carnaval, torcer por seu time de futebol e manter acesa a utopia de que a vida é bela e que amanhã pode ser melhor. A esperança nos remete ao princípio-esperança de Ernst Bloch que é mais que uma virtude; é uma pulsão vital que sempre nos faz suscitar novos sonhos, utopias e projetos de um mundo melhor.

Existe, no momento atual, marcado por um quase naufrágio do país, certo medo. O oposto ao medo, porém, não é a coragem. É a fé de que as coisas podem ser diferentes e que, organizados, podemos avançar. O Brasil mostrou que não é apenas bom no carnaval e na música. Mas pode ser bom na agricultura, na arquitetura, nas artes e na sua inesgotável alegria de viver.

Uma das características da cultura brasileira é a jovialidade e o sentido de humor, que ajudam a aliviar as contradições sociais. Essa alegria jovial nasce da convicção de que a vida vale mais do que qualquer outra coisa. Por isso deve ser celebrada com festa e diante do fracasso, manter o humor que o relativiza e o torna suportável. O efeito é a leveza e a vivacidade que tantos admiram em nós.

Está havendo um casamento que nunca antes fora feito no Brasil: entre o saber acadêmico e o saber popular. O saber popular é “um saber de experiências feito”, que nasce do sofrimento e dos mil jeitos de sobreviver com poucos recursos. O saber acadêmico nasce do estudo, bebendo de muitas fontes. Quando esses dois saberes se unirem, teremos reinventado um outro Brasil. E seremos todos mais sábios.*

O cuidado pertence à essência do humano e de toda a vida. Sem o cuidado adoecemos e morremos. Com cuidado, tudo é protegido e dura muito mais. O desafio hoje é entender a política como cuidado do Brasil, de sua gente, especialmente dos mais vulneráveis, como índios e negros, cuidado da natureza, da educação, da saúde, da justiça para todos. Esse cuidado é a prova de que amamos o nosso pais e queremos todos incluídos.

Uma das marcas do povo brasileiro, bem analisada pelo antropólogo Roberto da Matta, é sua capacidade de se relacionar com todo mundo, de somar, juntar, sincretizar e sintetizar. Por isso, em geral, ele não é intolerante nem dogmático. Ele gosta de acolher bem os estrangeiros. Ora, esses valores são fundamentais para uma globalização de rosto humano. Estamos mostrando que ela é possível e a estamos construindo. Infelizmente nos últimos anos surgiu, contra a nossa tradição, uma onda de ódio, discriminação, fanatismo, homofobia e desprezo pelos pobres (o lado sombrio da cordialidade, segundo Buarque de Holanda) que nos mostram que somos, como todos os humanos, sapiens e demens e agora mais demens. Mas isso, seguramente, passará e predominará a convivência mais tolerante e apreciadora das diferenças.

O Brasil é a maior nação neolatina do mundo. Temos tudo para sermos também a maior civilização dos trópicos, não imperial, mas solidária com todas as nações, porque incorporou em si representantes de 60 povos diferentes que para cá vieram. Nosso desafio é mostrar que o Brasil pode ser, de fato, uma pequena antecipação simbólica de que tudo é resgatável: a humanidade unida, una e diversa, sentados à mesa numa fraterna comensalidade, desfrutando dos bons frutos de nossa boníssima, grande, generosa Mãe Terra , nossa Casa Comum.

É um sonho? Sim, aquele necessário e bom.

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https://leonardoboff.wordpress.com/2018/09/20/ate-os-ventos-contrarios-nos-conduzirao-ao-porto-seguro/

Leonardo Boff escreveu Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência? Vozes 2018.

* Escolhi esta linda foto do Amigo Santino Frezza, por inspirar um sentido de coletividade na diversidade, e movimento conjunto, leve, como é este belíssimo texto.

Quando solicitei sua permissão para publicá-la, recebi esta sábia resposta:

“O texto de Boff traz a marca da sabedoria que lhe é peculiar.

O parágrafo:

Está havendo um casamento que nunca antes fora feito no Brasil: entre o saber acadêmico e o saber popular. O saber popular é “um saber de experiências feito”, que nasce do sofrimento e dos mil jeitos de sobreviver com poucos recursos. O saber acadêmico nasce do estudo, bebendo de muitas fontes. Quando esses dois saberes se unirem, teremos reinventado um outro Brasil. E seremos todos mais sábios.”

leva-me direto à união Lula (saber popular) / Haddad (saber acadêmico).
Voando juntos, os cabeças-secas (lembram-me da cabeça de um nordestino queimada pelo sol e pela secura da caatinga, em cujo interior há um cérebro atento às necessidades dos irmãos e aos meios de solucioná-las) e os colhereiros (lembram-me de um acadêmico que colhe a sabedoria popular) simbolizam a união que reinventará um outro Brasil.” – Santino Frezza, 26.09.2018.

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Para ver mais fotos de aves por Santino Frezza:
http://www.wikiaves.com.br/perfil_sanfrezza

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Na dimensão do vento – Pedro Brasil Jr

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Na dimensão do vento

                                           Pedro Brasil Jr.

Que me permita este dia em todo o seu esplendor, que neste início de tarde ensolarada e com um soprar diferente do vento, possa eu me dar ao luxo de parar no tempo e criar na moldura da janela uma tela multicor com todas as primordiais cenas que se foram. Algumas ainda ontem, outras na semana passada e muitas outras nos meses cujas folhas arranquei do calendário.

Há um sibilar quase inaudível nesta prosa com o vento, mas eu consigo ouvir sua mensagem toda própria.

Hoje não sou mais quem eu fui no passado. Havia ilusões que encobriam as verdades que nos cercam. Havia um caminhar pelas ruas com total despreocupação, e as pessoas pareciam viver de verdade, sem atribulações; sem maiores problemas do que, por exemplo, arrumar uns trocados para levar pão e leite para casa ao final do dia.
Não havia desconfiança a respeito do desconhecido que vinha pela calçada em sentido contrário e a sombra da gente era simplesmente a sombra.

Nesta janela por onde minha visão se perde vou, aos poucos, trocando as páginas deste álbum de imagens e fazendo descobertas novas sobre tanta gente que já partiu ou daquelas que simplesmente deram as costas e seguiram seu norte.

Então um silêncio profundo e amargo toma conta do ambiente e eu ouço o palpitar do meu coração e percebo que em toda a estrutura neurológica acontecem movimentos extraordinários que rapidamente reorganizam os arquivos da mente, da alma e do próprio coração.

Sim; eu lembro, eu revivo e de tudo ali retiro lições para prosseguir.
Existem instantes em que eu olho para o meu amor e lhe faço um apanhado de questionamentos. E fico sempre sem as respostas, porque aceitando ou não, elas estão todas definidas em minhas perguntas. Então respiro fundo e concluo que não existe outra maneira senão seguir amando, mesmo que a correspondência não esteja à altura, mesmo que falte um sorriso franco, um beijo verdadeiro, um abraço daqueles tipo quebra-ossos ou então; de um momento de entrega que possa levar a gente a uma outra dimensão.

O vento que sopra, que canta, que levanta telhas é o mesmo que leva as folhas secas para longe, para uma dimensão toda própria enquanto por aqui os talos se preparam para eclodir novas e verdinhas folhas. Então o amor deve ser bem assim; um amontoado de folhas secas ao léu, ao sabor do vento porque mais à frente nascerão folhas novas que vão trazer novas histórias.

E eu sigo aqui estático diante de minha moldura neste começo de tarde com céu azul, canção do vento e dança da copa do arvoredo. Minha tela fica concluída, mas é um emaranhado de tantas cores que não se pode definir absolutamente nada. Mas eu sei que ali está toda a essência da minha vida, da vida dos que me cercam, da vida dos que um dia estiveram pelo meu caminho e a vida de tantos outros que passaram rapidamente para deixar uma ínfima folhinha, resultado da robustez de suas árvores que chegaram em forma de eternas e proveitosas lições.

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http://guardiaodoportal.blogspot.com.br/

Imagem enviada por Pedro Brasil Jr.

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Sanhaçu-papa-laranja – foto de Santino Frezza, haiquase de Clarice Villac

SANHAÇU PAPA LARANJA_Santino_Frezza

olhos tão atentos

sanhaçu-papa-laranja

desperta respeito

.

haiquase de Clarice Villac
foto de Santino Frezza

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Para ver mais fotos de aves por Santino Frezza:
http://www.wikiaves.com.br/perfil_sanfrezza

 

 

 

 

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Com Trump tempos dramáticos nos esperam – artigo de Leonardo Boff; cartuns de Carlos Latuff

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Com Trump tempos dramáticos nos esperam

  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  Leonardo Boff, 28/06/2018

A humanidade está sob várias ameaças: a nuclear, a escassez de água potável em vastas regiões do mundo, o aquecimento global crescente, as consequências dramáticas da Sobrecarga dos bens e serviços naturais, indispensáveis à vida (the Earth Schoot Day).

A estas ameaças se acrescenta uma outra não menos perigosa, aventada já por vários analistas mundiais como os prêmios Nobéis Paul Krugman e Joseph Stiglizt.

Recentemente um economista ítalo-argentino, Roberto Savio, co-fundador e director geral da Inter Press Service (IPS), agora emérito, escreveu um artigo que nos deve fazer pensar sob o título:”Trump veio para ficar e mudar o mundo” (ALAI-America Latina en Movimiento de 20 junio de 2018).

Aí afirma que Trump não é uma causa da nova desordem mundial. Ele é um sintoma. O sintoma de tempos em que os valores civilizatórios que davam coesão a um povo e às relações internacionais, são simplesmente anulados. O que conta é o voluntarismo narcisista de um poderoso chefe de Estado, Trump, que no lugar destes valores colocou o dinheiro e os negócios pura e simplesmente. São estes os que definitivamente contam. O resto são perfumarias dispensáveis para o domínio do mundo.

Kids in Cages - by Carlos Latuff

O “America first” deve ser interpretado como “só a América” conta e seus interesses globais. Em nome deste propósito, já pré-anunciado em sua campanha, Trump rompeu tratados comerciais com velhos aliados europeus, a Aliança do Transpacífico e abriu uma arriscada guerra comercial com seu maior rival a China, impondo sobretaxas de importação de produtos que somam bilhões de dólares, além de cobrar taxas sobre o aço e outros produtos a outros países como o Brasil.

É próprio de figuras autoritárias e narcisistas fazerem pouco das legislações. Quando lhes convém passam por cima delas sem dar maiores razões. Para Trump vale mais a invenção de “uma verdade” do que a verdade factual mesma. O “fakenews” é um recurso presente em seus twitters. Segundo Fact Schecker, desde que assumiu a presidência disse cerca de 3.000 mentiras. Verdade e mentira valem na medida que respaldam seus interesses. Curiosamente venceu os principais pleitos e tem a aprovação de 44% da opinião pública e de 82% de aprovação do Partido Republicano.

Não tolera críticas e cercou-se se assessores súcubos que lhe dizem para tudo “sim” sob o risco de serem sumariamente demitidos.

Trump's options for the U.S. Supreme Court_carlos_latuff

Caso seja reeleito, o que não é improvável, o estilo de governo e a negação de toda ética poderão tornar-se irreversíveis. Não esqueçamos que Hitler e Mussolini também foram eleitos e criaram as suas mentiras vendidas como “verdades” para todo um povo.

Podemos estar face a um mundo marcado pela xenofobia, pela exclusão de milhares e milhares de imigrantes e refugiados, pela afirmação excessiva dos valores nacionais em desprezo dos demais. O crime maior,foi, qual Herodes moderno, separar filhos pequenos de seus pais, colocados em jaulas,mostrando-se sem qualquer sentido de humanidade e de compaixão. Tal crime clama aos céus.

Tais atitudes transformadas em políticas oficiais podem ser fonte de graves conflitos, cujo “crescendo” pode até ameaçar a espécie humana. Cerca de 1300 psicanalistas e psiquiatras norte-americanas denunciaram desvios psicológicos graves na personalidade de Trump.

carlos_latuff_march2018

Como será o destino da humanidade, entregue a um narcisista deste jaez, cujo paralelo só se encontra em Nero que se divertia assistindo o incêndio de Roma, com a diferença de que agora não se trata de um incêndio qualquer mas da inteira Casa Comum. Como é imprevisível e a toda hora pode mudar de posição, assistimos, assustados e estarrecidos, quais serão os futuros passos.

Que Deus que se anunciou como “o apaixonado amante a vida” (Sabedoria 11,24) nos livre de tragédias que poderão ocorrer, dada a irracionalidade de alguém que anuncia “um só mundo e um só império” (o império norte-americano).

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Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor e escreveu Salvar a Terra-proteger a vida: como escapar do fim do mundo, Record, RJ, 2010.

https://leonardoboff.wordpress.com/2018/06/28/com-trump-tempos-dramaticos-nos-esperam/

Para ver mais artes de Carlos Latuff:

https://www.facebook.com/realcarloslatuff

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Combatendo o machismo – cartum de Silvano Mello

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Avisar, a gente avisou. – Clarice Villac

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Avisar,
a gente avisou.
Mas bateram panelas, não ouviram nada, não respeitaram o que tão duramente havíamos conquistado.
Talvez agora percebam que atiraram também nos próprios pés,
pois não adianta explicar pra eles sobre justiça social e que a vida não acontece só na bolha em que vivem…
.
– Clarice Villac, 24/25.05.2018.

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Compotas – crônica de Pedro Brasil Jr.

Compotas – cronica de Pedro Brasil Jr..

Compotas
. . . . . . . . . . . – Pedro Brasil Jr.

Circulo por entre as gôndolas do mercado e deparo com uma seção toda dedicada aos doces e enlatados com diversas frutas entre as quais pêssegos, figos e abacaxis. Olhar atento, não consigo achar aquela antiga e famosa lata redonda que trazia a melhor goiabada pra gente unir àquele queijo minas e sentir o néctar dos deuses.

Levei para casa a goiabada num tijolinho e uma lata de pêssegos em calda para aquela sobremesa dominical. Aquela lata com a estampa de vistosas frutas me fez parar no tempo por instantes e depois me levou a um passado distante quando morávamos na Fazenda Baronesa no município de Palmeira-PR.

Lá, naquele imponente solar todo em madeira vivemos alguns anos maravilhosos junto à natureza e cercados por praticamente todas as frutas de época. No quintal onde minha mãe mantinha seus lindos jardins, havia laranjeiras, pereiras, ameixeiras, parreiral , um vistoso pé de caqui e três jabuticabeiras que desafiavam minha agilidade em subir em seus galhos para saborear ali mesmo os frutos. Recordo que nos finais de tarde, quase anoitecendo, eu dividia o espaço com esfomeados morcegos e, em meio ao silêncio tudo era quebrado com os brados de minha mãe mandando eu descer da árvore e ir para dentro.

Mas o interessante mesmo eram os pessegueiros quando carregados. Os galhos chegavam a vergar pelo peso dos frutos e tão logo chegavam ao ponto meu pai os colhia e começava sua empreitada para preparar aquelas magistrais compotas onde o amarelo dos pêssegos chegava a refletir a luz.

Compotas – cronica de Pedro Brasil Jr
Havia uma cozinha fora da casa anexa a um paiol onde um grande fogão à lenha era acionado para a pratica daquelas artes culinárias. Meu pai e minha mãe pegavam um grande tacho de cobre e ali começava o festival de frutos e açúcares que atraíam evidentemente as abelhas e vespas da região. Num balcão improvisado ficavam enfileirados aquelas dezenas de vidros próprios para compotas em diferentes tamanhos e numa espessura invejável. Os mesmos tinham um tampo também de vidro, um prendedor metálico para garantir que os potes ficassem bem fechados e tinha ainda uma borracha avermelhada que era o vedante entre a tampa e o vidro.

Um após outro saíam da produção aqueles maravilhosos potes que iam enfeitando os armários da casa e provocando a vontade da gente saborear. Mas tudo tinha um tempo determinado, até mesmo as cervejas feitas em casa que ficavam numa despensa anexa à casa e que, quando estourava uma tampinha a gente corria pegar a garrafa para saborear aquilo que para nós era cerveja, mas estava muito longe de ser a cerveja que iríamos conhecer mais tarde. Apesar de quente, era saborosa e era o que tínhamos para o momento…

Compotas – cronica de Pedro Brasil Jr.
Outras compotas nasciam com os figos, as laranjas para doce e as geleias de uva que tinham uma cor toda própria. Não foram poucas as vezes que vi meu pai com os pés enfiados naquele tacho amassando as uvas para criar o melhor suco de uva. Ficava com os pés e um pedaço da perna manchados por dias.

Se por um lado se vivia as maravilhas da fazenda, por outro o pesadelo foi chegando com nossa partida para a cidade grande. Tudo diferente, uma nova história a escrever, mas as compotas vieram com a mudança e por muitos anos adornaram os armários de minha mãe e a gente nem podia se atrever a mexer naquelas doces recordações de uma época adocicada em nossas vidas, que infelizmente se perdeu com o tempo… da mesma maneira que o casarão se fora e com ele toda uma obra escrita por mais de um século naqueles confins onde a mata era densa, as cobras pareciam macarronada viva, o gado era lindo, os cavalos mansinhos e as frutas-do-conde de uma árvore que quase encostava no céu deixaram para sempre o seu sabor em minha boca e em minhas recordações.

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Imagens enviadas por Pedro Brasil Jr.

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