A tolice das análises econômicas atuais – artigo de Leonardo Boff; fotos de Santino Frezza

tiriba-de-testa-vermelha_santino_frezza

Tiriba-de-testa-vermelha

A tolice das análises econômicas atuais

                                                                                     Leonardo Boff, 19/11/2016

 

Sigo com atenção as análises econômicas que se fazem no Brasil e pelo mundo afora. Com raras e boas exceções, a grande maioria dos analistas são reféns do pensamento único neoliberal mundializado. Raramente fazem uma autocrítica que rompa a lógica do sistema produtivista, consumista, individualista e antiv iecológico. E aqui vejo um grande risco seja para biocapacidade do planeta Terra seja para a subsistência da nossa espécie. O título do livro de Jessé Souza “A tolice da inteligência brasileira”(2015) inspirou o título de minha reflexão: “A tolice das análises econômicas atuais”.

Meu sentido do mundo me diz que se não tomarmos absolutamente a sério dois fatores fundamentais, podemos conhecer cataclismas ecológico-sociais de dimensões dantescas: o fator ecológico, de teor mais objetivo e o resgate da razão sensível de viés mais subjetivo.

Quanto ao fator ecológico: em sua grande maioria a macroeconomia ainda alimenta a falsa ilusão de um crescimento ilimitado, no pressuposto ilusório de que a Terra dispõe de recursos igualmente ilimitados e que possui ilimitada resiliência para suportar a sistemática exploração a que é submetida. A maldição do pensamento único mostra soberano desdém aos efeitos negativos em termos de aquecimento global, devastação de ecossistemas, escassez de água potável e outros, tidos como externalidades, vale dizer, dados que não entram na contabilidade das empresas. Esse passivo é deixado para o poder estatal resolver. O que deve ser garantido de qualquer forma é o lucro dos acionistas e a acumulação de riqueza em níveis inimagináveis que deixaria Karl Marx enlouquecido.

chopim-parasitando1_santino_frezza

Chopim e tico-tico

A gravidade reside no fato de que as instâncias que se ocupam com o estado da Terra, por parte dos organismos mundiais como a ONU ou mesmo nacionais que denunciam a crescente erosão de quase todos os itens fundamentais para a continuidade da vida (uns 13), não são tomados em conta. A razão é que são antissistêmicos, prejudicam o crescimento do PIB e os ganhos das grandes corporações.

chopim-parasitando2_santino_frezza

Chopim e tico-tico

Os cenários projetados por sérios centros de pesquisa são cada vez mais perturbadores. O aquecimento, por exemplo, não cessa de aumentar como se afirmou agora em Marrakesch na COP 22. A temperatura global de 2016 ficou 1,35 C acima do normal para o mês de fevereiro, a mais alta dos últimos 40 anos. Os próprios cientistas como David Carlson da Organização Meteorológica Mundial, uma agência da ONU, declarou: “isso é espantoso…a Terra certamente é um planeta alterado”.

Tanto a Carta da Terra quanto a encíclica do Papa Francisco Laudato Si: como cuidar da Casa Comum alertam sobre os riscos que a vida corre sobre o planeta. A Carta da Terra (grupo animado por M. Gorbachev, do qual tenho participado) é contundente: ou formamos uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscamos a nossa destruição e a da diversidade da vida”.

joao-de-barro-jovem_santino_frezza

João-de-barro jovem

Nos debates sobre economia, em quase todas as instâncias, os riscos e o fator ecológico sequer são nomeados. A ecologia não existe, mesmo nas declarações do PT, nas quais a palavra ecologia sequer aparece. E assim, gaiamente, poderemos trilhar um caminho sem retorno, por ignorância, irresponsabilidade e cegueira produzida pela volúpia da acumulação de bens materiais.

Donald Trump declarou que o aquecimento global é um embuste e que cancelará o acordo de Paris, já assinado por Obama. Paul Krugman, Nobel de economia, já alertou que tal decisão poderá significar um grave dano aos USA e ao planeta inteiro.

Conclusão: ou incorporamos o dado ecológico em tudo o que fizermos, ou então nosso futuro não estará garantido. A estupidez da economia só nos cega e nos prejudica.

jacuacu_santino_frezza

Jacuaçu

Mas esse dado científico, fruto da razão instrumental analítica, não é suficiente, pois ela friamente analisa e calcula e entende o ser humano fora e acima da natureza que pode explorá-la a seu bel-prazer. Temos que completá-la com o outro fator, o  resgate da razão sensível, a mais ancestral em nós. Nela reside a sensibilidade, o mundo dos valores, a dimensão ética e espiritual. Aí residem as motivações para cuidarmos da Terra e nos engajarmos por um novo tipo de relação amigável com a natureza, sentindo-nos parte dela e seus cuidadores, reconhecendo o valor intrínseco de cada ser, e inventando outra forma de atender nossas necessidades e o consumo com uma sobriedade compartida e solidária.

Temos que articular os dois fatores: o ecológico (objetivo) e o sensível (subjetivo): caso contrário dificilmente escaparemos, mais cedo ou mais tarde, da ameaça de um colapso do sistema-vida.

cranio_ave_santino_frezza

Crânio de ave

_________________

Imagens : fotos de de aves brasileiras por Santino Frezza , que gentilmente se dispôs a ilustrar este artigo fundamental de Leonardo Boff, e explica suas escolhas:

“A ideia é mostrar por meio das aves, suas expressões, seus comportamentos, a preocupação que o texto expõe:
o chopim mostrando a ganância, a exploração desmedida – embora ele tenha o alimento ao alcance do bico e capacidade para pegá-lo, exige que sua mãe postiça faça isso por ele;*
o jacuaçu olhando para trás, para os estragos já feitos;
o joão-de-barro jovem e a tiriba-de-testa-vermelha olhando para os lados e vendo o que ocorre no presente,
todas as aves ostentando um ar apreensivo, preocupado;
por fim, o futuro que aguarda a exploração desmedida e o lucro a qualquer custo, representado pelo crânio de uma ave marinha e a riqueza (ilusória, minúscula),
que nessa etapa já não servirá para nada.”

*Nota : Na Natureza, o comportamento do  chopim (Molothrus bonariensis) é normal, tem sua função no delicado equilíbrio do ecossistema – não cabe a nós julgar seus hábitos do ponto de vista humano, e ele aparece aqui somente no sentido metafórico, buscando uma analogia com a exploração ilógica e antinatural que ocorre entre as pessoas. (Clarice Villac)

Para ver mais fotos de aves por Santino Frezza:
http://www.wikiaves.com.br/perfil_sanfrezza

_____________

Artigo publicado em: https://leonardoboff.wordpress.com/2016/11/19/a-tolice-das-analises-economicas-atuais/

Leonardo Boff escreveu: Cuidar da Terra, proteger a vida: como escapar do fim do mundo. Record, 2010.

Publicado em Artigos, Imagens, Prosa | Marcado com , | Deixe um comentário

Cerrado Carmim – poema de Romulo Andrade, fotos de Romulo Andrade e Daniela Rossi

pau-terrinha

Pau terrinha


Cerrado Carmim

                                                                     – Romulo Andrade

 

Todos os anos me encanto
co’as folhas do pau-terra roxo,
ou pau-terrinha. Levadas
pelo vento forte de agosto,
quando em plena seca, ganham
uma linda coloração carmim.

cagaita-florida_romulo_pintoandrade

Cagaita florida

Nessa época também floresce
o ipê amarelo, o jacarandá mimoso
a cagaita, quando se veste de noiva,
algumas orquídeas nativas e
as roxas e rosadas quaresmeiras.

daniela-rossi-jacaranda-mimoso

Jacarandá mimoso

Clima de deserto, umidade baixíssima,
aridez é difícil suportar,
mas quando abrimos os olhos
estamos rodeados de uma beleza rara.

romulo-andrade-ipe-amarelo-25-anos

Ipê amarelo

Olhe bem.
Assim é o Cerrado, quando
sentido e apreciado mais de perto.
parque-da-cidade-pau-terrinha_romulo_pintoandrade

Parque da cidade, pau terrinha

_________________

Fotos por Romulo Andrade; com exceção do Jacarandá mimoso, por Daniela Rossi.
Publicado em Imagens, Poesia | Marcado com , , | Deixe um comentário

Refugiados – cartum de Silvano Mello

silvano-mello_refugiados

http://mellocartunista.blogspot.com.br/

http://www.facebook.com/cartunista.mello

 

Publicado em Cartuns, Imagens | Marcado com | Deixe um comentário

A libélula, a estrela e o dente de leão – Pedro Brasil Jr.

a-libelula-a-estrela-e-o-dente-de-leao-_pedro-brasil-jr
A libélula, a estrela e o dente de leão

                                                                               – Pedro Brasil Jr.

Primeiro fui dar uns passos por entre as espumas da quebra das ondas na praia.
Havia um brilho diferente naqueles cristais da areia e o som da rebentação das
ondas era agora uma canção única.
Ali, diante de toda aquela imensidão, água, céu e horizonte!…
Quantas vidas em pleno agito naquele mundo sempre tão misterioso…
O mar e sua grandeza sendo generoso por todas as partes.
Num instante, braços ágeis em meio à água rasa para mostrar o diferente numa
fração de segundos. Passou rapidamente com seu brilho próprio aquela maravilhosa estrela do mar.
Restou uma imagem na mente enquanto a brisa alisava o rosto. No céu agora, a travessia
do albatroz num suave ruflar de asas.
Mais adiante, como a surgir do nada, o inseto voraz em suas transparentes asas. E em torno de mim fez suas evoluções e seguiu adiante com a mesma rapidez com que aparecera. Lá foi a libélula e lá se foram tantos e tantos dias.
Sem a paisagem do mar, sem a brisa suave, sem o aroma do iodo, sem estrelas e sem gaivotas…
A vida se transforma em diferença de poucos quilômetros. Mas são estas pequenas distâncias que nos colocam a refletir sobre os ambientes. Aqui, o horizonte está em algum lugar além dos prédios, a brisa deve estar muito acima das poucas nuvens, as estrelas estão por lá, na imensidão do espaço. Tudo brilha numa mistura de luzes, faróis e neons.
Esta tarde gatinha com seu sol preguiçoso e convida para que se largue tudo só para ver o colorido no céu enquanto o sol se põe no oeste e segue viagem para iluminar outros povos.
Ali no gramado um dente de leão prepara sua equipe de paraquedistas para uma nova empreitada sementeira e, como menino arteiro daqueles idos tempos, apanho o dente de leão e dou um assopro com a força de uma turbina. Lá se vão as sementes carregadas pela brisa numa aventura insólita enquanto a mente desenha com seus hábeis pincéis os mais incríveis cenários.
Breve, pequenas e espumosas ondas na praia, horizonte em meio às águas, gaivota planando e, se tudo caminhar para a coincidência, talvez as invisíveis asas de uma libélula rodeiem o meu ser enquanto uma outra estrela do mar possa dar uma espiada nos seres que habitam este outro mundo.
Certeza mesmo? A de que novos dentes de leão estarão no ponto em breve para que a gente possa disfarçar um suspiro e preencher o ar com aqueles pequeninos paraquedistas que à sua maneira anunciam uma nova primavera.

– Pedro Brasil Jr. – 22/09/2016 – 17h45min

______________

http://guardiaodoportal.blogspot.com.br/

Publicado em Crônicas, Prosa | Marcado com | Deixe um comentário

Por que criticar a abertura das Olimpíadas me torna um pária neste sábado? – Leonardo Sakamoto

2016-08-06t020631z_1640516514_rioec8605ue0x_rtrmadp_3_olympics-rio-opening


Por que criticar a abertura das Olimpíadas me torna um pária neste sábado?


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Leonardo Sakamoto – 06/08/2016

Este autor gosta de esportes (tem até amigos que praticam), não desgosta das Olimpíadas (mas acha um crime ela ter passado por cima de tanta gente pobre para ser realizada), não tem complexo de vira-lata (mas pensa que falta autocrítica ao brasileiro) e não é saudosista (apenas considera muito triste as figuras de linguagem estarem caindo em desuso, enquanto a mesóclise volta à moda).

Dito isso, preciso confessar que faço parte do grupo de pessoas que, assistindo à cerimônia de abertura, não caiu em prantos, não achou a coisa mais linda desse mundo, não sentiu mais orgulho por ser brasileiro, não esqueceu seus problemas naquele instante e não saiu transbordando com “espírito olímpico”. Quanto a esse último ponto, vou dar uma passada numa loja licenciada pelo Comitê Olímpico Internacional, logo mais, para ver se compro um pouco e reponho.

O que, de certa forma, me torna um pária, neste sábado, pós-festança no Maracanã.

Teve muita coisa legal, claro. A escolha do maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima para acender a pira, alguém que ganhou apesar de perder – o que diz muito sobre o que deveria ser o esporte. E não tem como ver a Palestina entrar como uma delegação independente, empunhando sua bandeira, e passar incólume. Ou presenciar o time de atletas refugiados ser ovacionado – no que pese a mesma sociedade que aplaude, no dia seguinte, reclama de “haitiano que vem ao Brasil só para roubar nossos empregos”. Ou o Guga. E a Elza. E, é claro, o Gil. E, por fim, pena que Michel Temer não foi à abertura. Pelo menos, não ouvi ele sendo anunciado… (ok, enquanto houver resistência, vai haver figura de linguagem).

E não seria diferente porque foi escalado um time competente para organizar a abertura – time que, com um orçamento pequeno, fez milagre – que é uma palavra melhor que “jeitinho” ou “gambiarra”, termos que circularam para justificar o ajustes de última hora.

Sabemos fazer uma balada. E sabemos transformar uma grande balada num bom negócio. E transformar tudo em um grande elixir para esquecer, nem que seja por um momento, como a vida tem sido ruim. Afinal de contas, temos a experiência de mais de um século de carnaval.

E é bom que essas fugas aconteçam, para não enlouquecermos na racionalidade dura do dia a dia. Seria mais fácil se a maconha fosse legalizada e não apenas ansiolíticos de indústrias farmacêuticas, contudo isso é outra história.

Mas a mistura de bombardeio midiático, mais especificamente do poder da narrativa do pão e circo televisivo, em um evento que nos coloca por algumas horas como umbigo do mundo, ajuda a despertar um furor nacionalista, quiçá patriótico, em muita gente. E ai de quem não estiver feliz e radiante nesse momento em que, nós brasileiros, mostramos ao mundo finalmente quem somos. Criticar momentos de catarse é pedir para ser queimado na fogueira da rede social.

Por exemplo, foi importante a mensagem sobre a necessidade de frear as mudanças climáticas. O que ela não diz é que os próprios Jogos Olímpicos contribuem para esse processo, com extensas cadeias produtivas causando impactos ambientais e sociais a milhares de quilômetros do Rio e a falta de comprometimento de muitas empresas envolvidas direta ou indiretamente com o evento com padrões mínimos de sustentabilidade como mostraram estudos divulgados no último ano.

O discurso ambiental posto dessa forma torna-se mais um produto de entretenimento para consumo rápido, a fim de satisfazer nossas ansiedades e resolver nossas contradições. É como se emocionar ao assistir a Wall-E, a simpática animação que trata de um mundo que sofreu um apocalipse ambiental, e logo depois ir comprar os bonequinhos de plástico do robô protagonista da história. E, nós jornalistas, contribuímos com isso ao transmitir tudo de forma acrítica, sem lembrar que nem o governo, nem as empresas, nem a sociedade estão mudando seus hábitos na velocidade necessária para que cidades não sejam invadidas pelo mar nas próximas décadas. É como se tudo fosse culpa de aliens.

Na verdade, nem conseguimos entregar uma baía da Guanabara e uma lagoa Rodrigo de Freitas despoluídas para os jogos. Quiçá adotar uma mudança real em nosso modelo de desenvolvimento.

Modelo de desenvolvimento que segue transformando a vida de populações tradicionais um inferno. Mas tal como em todo 19 de abril, Dia do Índio, resgatamos sua imagem e a usamos para saudar nossa trajetória de harmonia e nossa democracia étnica. E sentimos orgulho em uma história que deveria, pelo contrário, provocar vergonha. E pedidos de desculpas públicos.

Perdoe-me se isso soa chato. Só que chato mesmo é tomar bala de fazendeiro no Mato Grosso do Sul. Ou ver seu rio secar para que Belo Monte possa funcionar. Ou ser queimado vivo em um ponto de ônibus de Brasília. Ou perceber que jovens negros e pobres seguem carregados para uma vida incerta e curta, tal como seus antepassados – roubados da África séculos atrás nas naus representadas na abertura.

É óbvio que ninguém está pedindo para colocar o Bansky como Mestre de Cerimônia. Seria o oposto do que se espera para um evento como esse, que deve ser altivo e inspirador. É um show. Como show cumpriu seu papel. E como show deve continuar.

E, é claro, que analisar a abertura, ao contrário do que afirmam algumas pessoas, não me desautoriza a ver os jogos pela TV. Vou acompanhar e torcer muito.

Mas isso não significa que a divulgação acrítica da história e da realidade do país deva ser o tom predominante em torno do que vemos e ouvimos nesta sexta (5). Essa tarefa não é de quem organizou a festa, mas nossa, de quem a assistiu.

Utilizar esses momentos também para refletir sobre o abismo entre a imagem de país que gostamos de vender ao mundo e o país que realmente somos é fundamental. Para que possamos aproximar desejo e realidade o máximo possível e tornar a efetivação da dignidade algo cotidiano.

Porque as Olimpíadas se vão. Mas o Brasil vai continuar o que era antes, de mãos dadas às suas contradições.

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2016/08/06/por-que-criticar-a-abertura-das-olimpiadas-me-torna-um-paria-neste-sabado/

______________________

imagem : aros olímpicos são formados com representação de plantas como mensagem ecológica (Foto: Reuters).

Publicado em Artigos, Eventos, Prosa | Marcado com | Deixe um comentário

Homem Linha & Sustentabilidade – tirinha de Fabiano dos Santos

Tirinha_Homem_Linha_Fabiano_Cartunista

http://www.fabianocartunista.com/

http://fabianocartunista.wix.com/portfolio

Publicado em Imagens, Tirinhas | Marcado com | 3 Comentários

Homem Linha & Planeta Terra – tirinha de Fabiano dos Santos

Homem Linha_Cartum_Meio_Ambiente_Fabiano_Cartunista

http://www.fabianocartunista.com/

http://fabianocartunista.wix.com/portfolio

Publicado em Imagens, Tirinhas | Marcado com | Deixe um comentário