Tartaruga sobe em pedra? – conto-fábula contemporânea e fotos de Santino Frezza

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Tartaruga sobe em pedra?

 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . – Santino Frezza

Já sabemos que jabuti não sobe em árvore. Se ele estiver lá, ou foi enchente ou mão de gente.
Tartaruga sobe em pedra? As fotos que ilustram este texto mostram que sim. Como não teve enchente nem mão de gente, esses quelônios subiram por conta própria. Só pode!
Essa habilidade de certas tartarugas tem a ver com a história dos jabutis, que vem da época da criação das medidas provisórias.
Programou-se um congresso no céu para que a macacada pudesse, enfim, tirar umas lasquinhas daquilo que outrora era reservado só aos bichos de pelagem mais nobre, especialmente às raposas. Uma regra clara foi então editada: só poderiam participar bichos que sobem em árvore.
O jabuti, que volta e meia era encontrado em cima da árvore, sentiu-se no direito de juntar-se à galera. Sabemos que a interpretação das regras que botam ordem nesses congressos é sempre bem maleável. Porteiros se adaptam à maleabilidade.
Com o manual de interpretação de regras congressuais debaixo da carapaça, o jabuti convenceu um macaquinho a dar-lhe carona até o evento.
O porteiro, acostumado à pelagem das raposas, resolveu que precisava dar um pente fino naquela bicharada toda preta ou em tons de cinza bem escuro. Afinal, quem veste tal pelagem já é suspeito por natureza.
Foi aí que encontrou o jabuti. A autoridade do momento bradou: “Aqui não, jabuti não sobe em árvore.” E jogou o penetra cá para o seu lugar.

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Pão de pobre sempre cai com a margarina para baixo. A margarina do jabuti era a sua carapaça, que se espatifou em mil pedacinhos. Com um tubinho de cola-tudo e muita paciência, o bichinho fez mil emendas no casco, uma medida provisória que se tornou permanente. Quem quer que olhe para um jabuti verá que sua carapaça está toda remendada.
O porteiro do congresso, cioso do cumprimento de seu dever, levou o fato ao conhecimento do líder das raposas, que se reuniam no andar de cima. Era o mote que faltava: tem corrupção no pedaço!
Como a macacada não se contentava só com as lasquinhas, era preciso dar um basta naquilo. “Só comiam banana e já passaram a comer mortadela. Se continuar assim, vai chegar o dia em que vão querer também comer nosso caviar”, discursou uma das raposas.
Instaurado o rigoroso inquérito, concluiu-se que o culpado pela fraude jabutiana só podia ser o macho alfa do bando, que deixou de vigiar o macaquinho. “Põe ele para fora, manda ele e sua turma lá para suas origens”, foi a decisão.
O macho alfa foi o cara que organizou o congresso, um gorila que há tempos metia medo nas raposas. “É o pior de todos, manda ele lá para aquele circo onde se interpretam as regras do modo mais adequado às circunstâncias. E tenho dito!”, sentenciou-se.
Foi assim que algumas tartarugas aprenderam a subir em pedras, esperando que outras também aprendam e que essas outras ensinem os jabutis. Um dia todos subirão ao céu sem ter que passar pelas árvores ou pedir carona. De ilusão também se sobrevive, ora!

 

Nota:
Este texto não tem a intenção de humanizar os animais, cujo comportamento é ditado pelas regras da natureza, iguais para todos os seres. O intuito está mais para animalizar os homens para, quem sabe, um dia adaptarem-se a tais regras universais.

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Para ver  fotos de aves por Santino Frezza:
http://www.wikiaves.com.br/perfil_sanfrezza

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Quando entrar setembro… – crônica de Pedro Brasil Jr.

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Quando entrar setembro…

                                                        – Pedro Brasil Jr.

Setembro chegou no dia e hora marcados!
Eu é que me atrasei entre os sonhos que não consigo lembrar!
Mas o portal estava aberto logo cedo, um alvorecer lusco-fusco, uma brisa gélida e os pássaros de sempre cruzando aquele céu que tanto conheço…
Já é setembro da minha prima querida, da estação de todas as cores, todos os sabores, todos os amores e do meu bem querer que é segredo e sagrado!
Coração palpita forte em bit acelerado, esperando surpresas que só a natureza aufere.
O dia segue preguiçoso, manhoso e numa atmosfera que intriga a alma…
Eu nem queria escrever, nem queria tirar uma foto, nem queria hoje pôr os pés para fora de casa. Queria mesmo era poder exercer um ritual de sossego, desses que raramente a gente consegue em meio ao rebuliço de cada dia. O cansaço vez ou outra pega a gente e nos manda ir olhar pela janela para não ver nada, mas enxergar muito além do alcance dos olhos.
Fiquei ali uns minutos e me deixei levar distante em meio ao sibiliar do vento, ao ruflar das asas do pássaro e daquelas nuvens que estavam num desfile de moda todo próprio.
Uma paradinha nesta manhã de primeiro de setembro, na janela frontal esperando um raio de sol, um reflexo qualquer para, como num flash, dar à luz a essência do existir.
Depois saí como de costume e observei que todos os que vejo a cada dia estavam circulando da mesma maneira, com os mesmos trejeitos, com as mesmas preocupações, eu presumo; e só eu, pelo menos por aquelas paragens é que estava cultuando esta entrada de setembro, mais um mês, mais um setembro entre tantos já vividos e cujo significado para mim se volta ao renascer, aos reencontros, às energias novas que impulsionam a vida da gente.
Mas este setembro que outrora era “sete” e se tornou o “nono” mês do ano ora adentra nosso cotidiano irradiando sua luz, sua força e todo o seu poder de poesia viva.
Então; setembro chegou sorrateiro e apesar de não nos parecer ter ocorrido mudanças durante o inverno, no silêncio e com toda parcimônia trabalhou a natureza. Em alguns dias tudo eclodirá numa explosão de fractais fantásticos e a vida, toda ela ao redor, ganhará um novo impulso com a chegada da nova estação.
Estejam todos a postos para embarcar neste maravilhoso trem azul lembrando que, para este fantástico passeio é preciso levar consigo apenas a esperança de tempos melhores. E que cada um de nós possa fazer um pouquinho para melhorar o mundo.
E viva setembro!!!!

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http://guardiaodoportal.blogspot.com.br/

Imagens editadas por Pedro Brasil Jr.

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Slow motion – setilha de Clarice Villac


chuva


Slow motion

 

lua minguante de agosto

chuvinha fria de inverno

tudo respira melhor

brilha o espaço interno

enquanto lava a poeira

vai se acalmando a zoeira

desse palpitar eterno

.

***

Clarice Villac
16.08.2017

 Claude Debussy – Reflets dans l’eau :
https://www.youtube.com/watch?v=nnnKmQ-wXZw

imagem encontrada na internet – autoria desconhecida

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Precisamos Salvar as Florestas ! – cartum de Fabiano dos Santos

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O que estamos fazendo para as Florestas do Mundo é apenas um reflexo do que estamos fazendo a nós mesmos e uns aos outros.”

Fabiano dos Santos

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Mais cartuns sobre Educação Ambiental, acesse:
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Andorinhas Escrevem No Ar – poema de Lindolf Bell, cartum de Laerte Coutinho

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Andorinhas Escrevem No Ar

                                                            –  Lindolf Bell

Guardo da infância
andorinhas escrevendo
no ar

Hoje
recolho ainda
andorinhas escrevendo
no ar

Andorinhas
não publicam
nem declamam
o que escrevem
no ar

Entendi a escrita minha
ao entender a escrita da andorinha

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Poema : Lindolf Bell, in O Código das Águas, org. Sônia Rivello.

Imagem: cartum de Laerte Coutinho : http://manualdominotauro.blogspot.com.br/2013/01/lola-99.html

 

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O porquê da violência no ser humano e na sociedade – artigo de Leonardo Boff; fotos de Santino Frezza

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Tororó

O porquê da violência no ser humano e na sociedade

                                                                                                 Leonardo Boff, 17/06/2017

Vivemos no nível nacional e mundial situações de violência que desafiam nosso entendimento. Não apenas de seres humanos contra outros seres humanos, especialmente no Norte da África, no Sudão, no Oriente Médio e entre nós mas também contra a natureza e a Mãe Terra. O Papa Francisco em sua encíclica ecológica Sobre o Cuidado da Casa Comum escreveu acertadamente:”Nunca maltratamos e ferimos a nossa Casa Comum como nos últimos dois séculos” (n.53). Não sem razão que está se impondo a ideia de que inauguramos uma nova era geológica, o antropoceno segundo o qual o grande meteoro rasante ameaçador da vida no planeta é o próprio ser humano. Ele se fez o Satã da Terra quando foi chamado a ser o anjo bom e cuidador do Jardim do Éden.

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Fumaça – interior de SP

A existência da violência, não raro sob forma de aterradora crueldade, representa um desafio para o entendimento. Teólogos, filósofos, cientistas e sábios não encontraram até hoje uma resposta convincente.

Quero apresentar, sumariamente, a proposta de notável pensador francês que viveu muitos anos nos EUA e que faleceu em 2015: René Girard (1923-2015). Apreciava meus textos e a Teologia da Libertação em geral a ponto de ele mesmo ter organizado em Piracicaba-SP um encontro (25-29 de junho de 1990) com vários teólogos e teólogas, pois via nos propósitos deste tipo de teologia a possibilidade da superação da lógica da violência.

LIXO NO HORTO_Santino_Frezza

Lixo no Horto – interior de SP

De sua vasta obra destaco duas principais: “O sagrado e a violência” (Rio 1990) e “Coisas escondidas desde o princípio do mundo” (Rio 2005). Qual é a singularidade de Girard? Ele parte da tradição filosófico-psicanalítica que afirma ser o desejo uma das forças estruturantes do ser humano. Somos seres de desejo. Este não conhece limites e deseja a totalidade dos objetos. Por ser o desejo indeterminado, o ser humano não sabe como desejar. Aprende a desejar, imitando o desejo dos outros (“desejo mimético” na linguagem de Girard).

Isso se vê claro na criança. Não obstante os muitos brinquedos que possui, o que mais ela quer, é o brinquedo da outra criança. E aí surge a rivalidade entre elas. Uma quer o brinquedo só para si, excluindo a outra. Se outras crianças entrarem nesse mimetismo, origina-se um conflito de todos contra todos.

PRAÇA_Santino_Frezza

Praça – Lençóis Paulista, SP

Esse mecanismo, afirma Girard, é paradigmático para toda a sociedade. Supera-se a situação de rivalidade-exclusão, quando todos se unem contra um, fazendo-o bode expiatório. Ele é feito culpado de querer só para si o objeto. Ao se unirem contra ele, esquecem a violência entre eles e convivem com um mínimo de paz.

Com efeito, as sociedades vivem criando bodes expiatórios. Culpados são sempre os outros: o Estado, o PT, os políticos, a polícia, os corruptos, os pobres e por aí vai. Importa não esquecer que o bode expiatório apenas oculta a violência social, pois todos continuam rivalizando entre si. Por isso, a sociedade goza de um equilíbrio frágil. De tempos em tempos, com ou sem sem bode expiatório explícito, a violência se manifesta especialmente naqueles que se sentem prejudicados e buscam compensações.

Bem o expressou Rubem Fonseca em seu livro “O Cobrador”. Um jovem de classe média empobrecida, por força das circunstâncias, pratica atos ilícitos. Sente-se roubado pela sociedade dominante e confessa: “Estão me devendo colégio…sanduíche de mortadela no botequim, sorvete, bola de futebol…estão me devendo uma garota de vinte anos, cheia de dentes e perfume. Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei… sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo”.

Aqui busca-se uma solução individual para um problema social. Na medida em que permanece individual não causa grande problema. Pelo contrário, os causadores principais da violência estrutural  são as classes dominantes que acumulam para si à custa do empobrecimento dos outros. Quanto mais duramente se aplicam as leis contra os empobrecidos mais seguras se sentem. Destarte, conseguem ocultar o fato de serem  elas as principais causadoras de uma situação permanente de violência que o empobrecimento implica.

GARIMPO_santino_frezza

Garimpo – Lençóis Paulista, SP

Mais ainda, vivemos num tipo de sociedade cujo eixo estruturador é a magnificação do consumo individualista. A publicidade enfatiza que alguém é mais alguém quando consome um produto exclusivo que os outros não têm. Suscita-se um desejo mimético de se apossar do bem do outro.  Esta lógica perpetua a violência.

Mas o desejo não é só concorrencial, diz Girard. Ele pode ser cooperativo. Todos se unem para compartilhar do mesmo objeto. De concorrentes se fazem aliados. Tal propósito gera uma sociedade mais cooperativa que competitiva e uma democracia participativa. Aqui Girard via o sentido político da Teologia da Libertação porque propõe uma educação que não imita o opressor, mas se faz livre e ensina a não criar bodes expiatórios mas a assumir a tarefa de construir uma sociedade mais igualitária e  inclusiva. Então sim haverá mais paz que violência.

ARIRAMBA DE CAUDA RUIVA0_santino_frezza

Ariramba-de-cauda-ruiva

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Imagens : fotos por Santino Frezza , que gentilmente se dispôs a ilustrar este artigo fundamental de Leonardo Boff, e explica suas escolhas:

“A foto PRAÇA mostra como ficou uma praça em Lençóis Paulista depois que as águas de uma enchente gigantesca baixaram.
A foto GARIMPO mostra pessoas pobres “garimpando” material que foi descartado por moradores atingidos pela cheia.
Atribuo essa cheia à ruptura de barragens, várias em cadeia, construídas rio acima sem os devidos cuidados com o meio ambiente. As autoridades culpam São Pedro pelo excesso de chuva.
A foto LIXO NO HORTO mostra o estado de um horto florestal no interior de São Paulo depois da chuva.
Essas três imagens mostram, entre outras coisas, as falhas na coleta de lixo de ambas as cidades.

A foto FUMAÇA mostra o resultado de provável queima irregular de lixo na mesma cidade do horto.

Por fim, outras duas fotos de aves que selecionei para contrastar com as demais.”

Para ver mais fotos de aves por Santino Frezza:
http://www.wikiaves.com.br/perfil_sanfrezza

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Artigo publicado em:

https://leonardoboff.wordpress.com/2017/06/17/o-porque-da-violencia-no-ser-humano-e-na-sociedade/#comments

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e autor de A violência da sociedade capitalista e do mercado mundial, e articulista do JB on line.

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Sáude dos oceanos, cadeia alimentar, poluição – cartum de Fabiano dos Santos

cartum_ambiental_saude_oceanos_cadeia_alimntar_Fabiano Dos Santos

http://www.fabianocartunista.com/

http://fabianocartunista.wix.com/portfolio

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